Hobalalá: a música que não termina
Hobalalá: a música que não termina
Resenha crítica e um olhar psicanalítico do livro "Hobalalá: a procura de João Gilberto", de Marc Fischer (2011) e do documentário “Where are you, João Gilberto?” (2018), de Georges Gachot, na qual eu faço um percurso a título de elaboração entre o documentário, o livro e abosessão por João GIlberto.
Assisti ao documentário "Where Are You, João Gilberto?", de Georges Gachot, e fiquei pensando em Marc Fischer.
Marc Fischer escreveu o livro "Hobalalá: a procura de João Gilberto", que relata sua procura pelo cantor no Rio de Janeiro e transforma o fracasso deste encontro em uma reflexão sobre música, Brasil e desejo.
Georges Gachot ficou tão impressionado com a história de Fischer que decidiu refazer os passos do escritor, seguiu as pistas deixadas por Fischer, reencontrou as pessoas que ele havia entrevistado, percorreu os lugares por onde passou e tentou, ele próprio, chegar até João Gilberto.
Só que aí acontece uma coisa muito interessante: o documentário se transforma numa busca em duas camadas. Gachot procura João Gilberto, mas, ao mesmo tempo, procura Marc Fischer procurando João Gilberto.
Por isso o documentário é também uma investigação sobre Fischer: quem era aquele homem? Por que aquela procura o capturou daquela maneira? O que o levou a escrever o livro? E o que significa perseguir alguém que praticamente transformou o desaparecimento em parte da própria identidade?
Vamos aos fatos.
Fischer conheceu João Gilberto de um modo curioso. Depois do fim de um relacionamento, viajou para o Japão e conheceu um homem que tinha uma estante de discos. Entre os vinis, um ocupava um lugar de destaque: João Gilberto. O japonês colocou o disco para tocar.
A música durou dois minutos e dezessete segundos.
Fischer conta que, quando a música acabou, ela não havia terminado. Continuou ressoando nos móveis durante muito tempo.
Fiquei pensando que talvez ela também tenha continuado ressoando dentro dele.
Não sei se foi assim. Não conheci Marc Fischer, não sei o que aquela separação significou para ele, nem seria possível estabelecer uma relação causal entre uma perda amorosa e a paixão que viria depois. Mas gosto de pensar nessa possibilidade.
Porque há momentos em que alguma coisa se perde e deixa um espaço aberto e, às vezes, é justamente nesse espaço que alguma coisa nova encontra lugar.
Talvez João Gilberto tenha entrado ali, não como substituto de um amor perdido. Isso seria simples demais. Provavelmente como uma forma de dar contorno a uma falta que Fischer ainda não tinha forma.
Fischer não se contentou em ouvir João Gilberto, ele quis saber quem era aquele homem e então descobriu que João Gilberto era, de certa maneira, alguém que havia desaparecido. Um homem que não queria ser encontrado, que gostava de falar ao telefone e que sua voz podia estar presente sem que seu corpo estivesse.
E Fischer foi atrás dele. Veio ao Rio de Janeiro, foi aos lugares onde João Gilberto havia estado, conversou com as pessoas que o conheceram, seguiu pistas, procurou o homem que era conhecido justamente por não querer ser encontrado.
E aqui comecei a pensar na obsessão.
Não na pequena obsessão cotidiana, como procurar o melhor restaurante, o vestido perfeito ou o Red Velvet mais gostoso. Essas coisas têm um fim possível, pois você encontra e pronto: a procura termina.
Há objetos que podem ser encontrados, mas há objetos cuja própria natureza é permanecer um pouco além e, nestes casos, talvez seja aí que a falta adquira outra função.
A falta move o desejo, queremos o que não temos, porém em determinadas formas de obsessão, a própria procura é construída de modo a preservar a falta. Você procura, não encontra, procura mais, não encontra e a ausência, em vez de interromper a busca, passa a alimentá-la.
João Gilberto era um objeto particularmente perfeito para isso. Ele estava vivo, mas ausente. Podia ser ouvido, mas não necessariamente visto. Podia estar do outro lado de um telefone ou estar tocando dentro de um apartamento. Podia ser encontrado, mas também podia continuar desaparecido.
E então penso que há algo de João Gilberto na própria estrutura dessa história.
João Gilberto passou a vida procurando uma espécie de precisão impossível: aquela nota, aquele acorde, aquela combinação exata entre voz, violão, silêncio e tempo.
Ainda menino, tocava no banheiro da casa da irmã, em Diamantina. O banheiro lhe devolvia o som, que funcionava quase como uma pequena câmara de escuta, isolando sua voz e seu violão do mundo.
Talvez ali já estivesse começando uma procura, não apenas pela música certa, mas pela escuta certa.
A música de João Gilberto parece existir nesse lugar mínimo entre o que está muito bom e o que ainda pode ser melhor.
E Fischer parece fazer algo semelhante, só que com um homem: João Gilberto procura a nota que falta. Fischer procura o homem que falta.
Um busca uma música que provavelmente nunca esteja definitivamente pronta e o outro busca um homem que talvez nunca queira ser encontrado.
E há uma cena no documentário que me ficou especialmente na cabeça: quando Gachot chega finalmente diante da possibilidade de encontrar João Gilberto, escuta seu violão vindo de dentro do apartamento. João Gilberto está ali, está a um passo de ele conhecê-lo ou talvez não e a dúvida permanece.
Essa dúvida é justamente que o torna a cena tão poderosa, pois se João Gilberto for encontrado de maneira inequívoca, alguma coisa terminaria. A busca chegaria ao fim.
Mas a dúvida mantém a porta aberta e o documentário termina sem que saibamos se finalmente Gachot conheceu João Gilberto.
Penso que algumas obsessões nasçam quando encontramos um objeto que parece ter sido feito para permanecer fora de alcance, não porque não o desejamos, mas justamente porque o desejamos demais.
A pergunta que ficou em mim depois do documentário foi menos “por que Marc Fischer ficou obcecado por João Gilberto?” e mais “o que acontece quando o que desejamos encontra uma falta que não pode ser preenchida?”
Talvez a busca continue, a música continue ressoando mesmo depois de ter terminado.
Fichas Técnicas:
Livro: Ho-ba-la-lá: à procura de João Gilberto, Marc Fischer. Companhia das Letras, 2011. Tradução de Sergio Tellaroli. 184 p.
Documentário: Onde Está Você, João Gilberto? (2018), direção de Georges Gachot. Suíça/Alemanha/França. 107 min. Roteiro de Georges Gachot e Paolo Poloni. Música de João Donato.