Joon-hee: uma exceção que não salva
Joon-hee: uma exceção que não salva
Resenha crítica e um olhar psicanalítico sobre Joon-hee da série “Something in the Rain”, um anti-dorama sul-coeano.
Em Something in the Rain, Joon-hee não é apenas o par romântico de Jin-ah. Ele é um desvio. Um homem que não encaixa perfeitamente no molde coreano tradicional e é justamente por isso que ele parece possível. Ele é mais novo, viveu fora e não carrega o mesmo peso de adequação.
Esses três elementos não são detalhes biográficos: são condições de desejo.
A diferença de idade o coloca fora do cronograma rígido que organiza a masculinidade coreana: casar na hora certa, subir profissionalmente, manter compostura emocional, não depender demais de ninguém. Joon-hee ainda não está totalmente capturado por esse roteiro. Ele não precisa provar tanto, pois não vive o amor como ameaça ao seu lugar no mundo.
Ter morado nos Estados Unidos também importa, não porque o torne “melhor”, mas porque o expõe a outro regime de laço. Um regime em que falar de sentimentos não é imediatamente ridicularizado, o casal não existe sob vigilância permanente da família, o desejo não precisa pedir desculpa e o amor não é automaticamente dívida feminina. Porém, é uma exceção que não salva.
Isso aparece em gestos mínimos, que o dorama faz questão de sustentar: ele espera sem punir, insiste sem invadir, se mostra sem teatralizar. Ele não se retrai diante da ambivalência dela. Não transforma o medo de Jin-ah em acusação. Ele permanece.
E é aí que mora o perigo.
Porque Joon-hee encarna algo profundamente perturbador para muitas mulheres: o homem que poderia dar certo. Não o príncipe idealizado, mas o homem possível, atento, investido, emocionalmente disponível. Ainda assim, não altera o cenário.
Ele é a prova de que o problema não é ausência total de homens assim. Eles existem. São raros, mas existem. E, ainda assim, não basta.
O dorama é cruel o suficiente para não cair na fantasia salvadora. Joon-hee sustenta o vínculo afetivo, mas não consegue sustentar o vínculo social. Ele ama Jin-ah, mas não consegue protegê-la da violência da mãe, do peso da reputação, da engrenagem que cobra dela a renúncia contínua.
Isso é fundamental: o fracasso não está nele como indivíduo. Está no mundo que não suporta esse tipo de homem nem esse tipo de mulher.
Joon-hee é um homem “fora de lugar”. E o sistema reage.
Por isso Something in the Rain é tão honesto. Ele não diz: “basta encontrar um homem diferente”. Ele diz o contrário, em silêncio: mesmo quando o homem é diferente, o custo recai sobre ela. Não se trata de má vontade masculina. Trata-se de impotência simbólica.
Joon-hee mostra uma possibilidade e, ao mesmo tempo, seu limite. Ele revela que o desejo pode ser outro, sim. Mas revela também que amar, nesse contexto, continua sendo um risco alto demais para a mulher.
Talvez por isso Joon-hee seja tão amado pelas espectadoras. Não como fantasia inalcançável, mas como quase. O homem que chega perto, o homem que entende, o homem que fica.
E talvez seja por isso que, fora da tela, tantas mulheres escolham não insistir mais no quase. Porém, não incide sobre o que se repete socialmente.
Jin-ah tenta atravessar e sangra. Joon-hee não é o problema. Ele é a evidência mais delicada de que o problema é maior que o casal. E isso faz de Something in the Rain não apenas um anti-dorama, mas um retrato preciso do ponto em que o desejo existe e o mundo não acompanha.
Ficha Técnica:
Título: Something in the Rain
Gênero: Romance, Drama, Realismo
País/Ano de Lançamento: Coreia do Sul/2018
Episódios: 16
Onde assistir: Netflix
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