Texto de opinião sobre o feminismo, o movimento 4B e a aposta no amor na sociedade contemporânea.
Comparar o movimento 4B, surgido na Coreia do Sul, com os feminismos no Ocidente não é apenas comparar pautas. É comparar gestos éticos diante do esgotamento. O que está em jogo não é só o que se reivindica, mas o que se faz quando o laço deixa de caber.
O 4B nasce de um ponto extremo. Não de um ideal de mundo, mas de um cansaço radical. Mulheres jovens, altamente escolarizadas, inseridas no mercado de trabalho, confrontadas com uma cultura que exige tudo delas (cuidado, beleza, submissão emocional, maternidade) sem oferecer equivalência. Não se trata de melhorar as condições do amor, do casamento ou da sexualidade heterossexual. Trata-se de não participar mais. O que aparece ali não é uma nova proposta de organização social, mas um gesto seco: recusa.
Os quatro “nãos” do 4B (não casar, não ter filhos, não namorar homens, não fazer sexo com homens) não são morais, nem individuais. São um gesto político silencioso. Um corte. Como se essas mulheres dissessem: se o preço é estruturalmente alto demais, eu não negocio, eu saio.
No Ocidente, a lógica predominante é outra. Mesmo nos feminismos mais críticos ao amor romântico, ao casamento e à família tradicional, há uma aposta insistente na transformação do laço. A ideia de que é possível amar diferente, dividir melhor, educar os homens, reinventar a masculinidade, renegociar o cuidado. O conflito é assumido como campo de disputa. O gesto é “vamos mudar as regras do jogo”.
O 4B, ao contrário, não acredita mais que o jogo possa ser reformado. Ele não dialoga com os homens, não propõe reeducação, não espera conversão subjetiva. Não há investimento na mudança do outro. Há um deslocamento radical do próprio corpo para fora do circuito da disponibilidade.
Essa diferença aparece de modo muito nítido na relação com o desejo. No Ocidente, grande parte do feminismo reivindica o prazer sexual feminino como potência emancipatória. Fala-se de liberdade sexual, de apropriação do corpo, de gozo como direito. O 4B faz quase o movimento inverso: retira o corpo da cena sexual heterossexual. Não porque negue o desejo, mas porque reconhece o custo psíquico de sustentá-lo naquele formato.
Onde o feminismo ocidental pergunta “como amar melhor?”, o 4B afirma “não vou amar assim”. Não há ali idealização de novos arranjos afetivos. Há sobrevivência.
Outra diferença importante está na forma de radicalidade. Os feminismos ocidentais são, em geral, altamente discursivos: manifestos, teorias, leis, debates públicos, redes sociais. O 4B opera quase sem discurso. Ele acontece no cotidiano, de maneira pouco visível, quase clandestina. Sua radicalidade não está na palavra, mas no efeito: retirar mulheres do casamento, da maternidade e da reprodução social.
É por isso que ele assusta tanto. Porque não pede nada. Apenas para de oferecer.
No fundo, o 4B surge quando a fantasia de conciliação entra em colapso. Quando não é mais possível acreditar que dar conta de tudo, trabalho, amor, cuidado, desejo, seja uma equação resolvível. Já no Ocidente, essa fantasia ainda circula com força: a ideia de que, com ajustes suficientes, o laço pode funcionar.
Nenhuma dessas posições é universal ou definitiva. Elas respondem a contextos distintos de violência, exaustão e expectativa. Mas a comparação revela algo essencial: há momentos históricos em que lutar por melhores condições já não basta. E há sujeitos para os quais se retirar é o único gesto possível de preservação.
O 4B não é um projeto de felicidade. É um gesto de limite. Um “não” que não pede desculpa.
E talvez seja por isso que ele ecoe tanto, mesmo fora da Coreia do Sul, pois bordeja um ponto que atravessa muitas mulheres hoje, inclusive no Ocidente: a pergunta silenciosa sobre até onde vale insistir e quando sair do jogo é, finalmente, uma forma de ficar inteira, devido à exaustão diante de laços que cobram mais do que devolvem.
Não é, necessariamente, sobre não amar. É sobre não se perder para amar.
Em algum momento, algumas mulheres percebem que passaram tempo demais explicando seus limites, administrando demandas, negociando o próprio cansaço. E quando isso se torna claro, algo muda de lugar. O corpo recua antes da palavra, a disponibilidade diminui e a presença se torna seletiva.
Não se trata de se fechar ao encontro, mas de se retirar do excesso, de escolher menos lugares, menos cenas, menos vínculos. De preservar energia psíquica. De não se oferecer como palco para curiosidade sem implicação.
Esse gesto não é ressentimento; é lucidez tardia.
E talvez o ponto comum entre o 4B e tantas experiências individuais seja exatamente esse: quando amar começa a custar o próprio desaparecimento, sair do jogo deixa de ser desistência, passa a ser uma forma de ficar inteira.
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