Resenha crítica e um olhar psicanalítico da série Mare of Eastown (2021)
Mare of Easttown acompanha Mare Sheehan, uma detetive de uma pequena cidade da Pensilvânia que investiga o assassinato de uma adolescente enquanto lida com conflitos familiares e uma perda que ainda ecoa em sua vida. À medida que o caso avança, a série revela que, por trás do suspense policial, existe uma trama marcada por segredos, lutos e vínculos atravessados pelo silêncio. É justamente nesse terreno que a narrativa se torna especialmente rica para uma leitura psicanalítica.
Embora tenha a estrutura de uma investigação criminal, o que se destaca, sob um viés psicanalítico, é uma narrativa profundamente marcada pelo luto, pela culpa, pela repetição e pela dificuldade de simbolizar aquilo que foi perdido.
Talvez o verdadeiro enigma da série sobre o que acontece com um sujeito quando uma perda não encontra lugar na palavra.
Desde o início, Mare parece viver em estado de suspensão. Ela trabalha, resolve conflitos, protege pessoas e insiste em manter a cidade funcionando, mas sua própria vida permanece congelada em torno da morte do filho. Não se trata apenas de tristeza. Há algo do investimento libidinal que continua preso ao objeto perdido, como descreve Freud em Luto e Melancolia.
Para Freud, no luto, a realidade exige um trabalho lento e doloroso: reconhecer que o objeto não está mais ali para que a libido possa se deslocar aos poucos para outros destinos.
Na melancolia, esse desligamento fracassa. A perda se torna opaca, difícil de representar e o sujeito passa a carregar algo do objeto dentro de si. A crítica dirigida ao objeto pode se voltar contra o próprio eu, produzindo culpa, empobrecimento subjetivo e uma sensação persistente de insuficiência.
Mare não verbaliza esse processo; ela faz outra coisa: trabalha, age, investiga e resolve. É como se mantivesse a máquina em funcionamento para não correr o risco de encontrar o silêncio deixado pela perda.
Essa posição também pode ser lida à luz da compulsão à repetição. Freud observa que o sujeito frequentemente repete aquilo que não consegue recordar ou simbolizar. Em vez de elaborar, encena.
A repetição não é um erro da memória; é uma forma de o inconsciente insistir naquilo que ainda não encontrou inscrição psíquica.
Talvez por isso a investigação criminal tenha um valor que ultrapassa a profissão de Mare. Resolver crimes, encontrar culpados e restabelecer uma ordem pode funcionar como uma tentativa incessante de dar sentido ao que, em sua história, permaneceu radicalmente sem sentido. Como se cada caso trouxesse a esperança inconsciente de reparar uma perda que nenhuma solução policial poderia reparar.
Outro aspecto marcante é a circulação da culpa. Na série, ela nunca pertence apenas a uma pessoa. Ela atravessa famílias, vínculos e gerações. Segredos são transmitidos, silêncios organizam relações e aquilo que não foi simbolizado continua produzindo efeitos.
Em termos psicanalíticos, o recalcado não desaparece; retorna, muitas vezes sob a forma de sintoma, atuação ou repetição.
A própria cidade parece funcionar como metáfora do inconsciente. Todos sabem um pouco sobre todos, mas ninguém conhece a história inteira. Existem fragmentos, versões parciais, lembranças distorcidas e zonas interditadas.
O passado não está encerrado. Ele insiste no presente, moldando escolhas, afetos e destinos.
Também chama atenção a forma como Mare ocupa o lugar de quem cuida. Ela tenta salvar filhos que não são seus, proteger adolescentes, sustentar familiares e amparar vizinhos. Essa posição pode ser compreendida como uma defesa contra a experiência da própria falta. Enquanto responde à demanda do outro, adia o encontro com aquilo que nela permanece impossível de reparar.
Sob uma leitura lacaniana, poderíamos dizer que Mare se confronta continuamente com o real da perda: aquilo que resiste à simbolização e que não pode ser completamente integrado pela linguagem.
O crime, a morte e o trauma aparecem justamente como pontos em que o sentido falha. O sujeito tenta construir narrativas, investigar, organizar os fatos, mas resta sempre um núcleo que escapa.
É por isso que o momento decisivo da série não é necessariamente a descoberta do culpado.
O movimento mais importante ocorre quando Mare consegue se aproximar daquilo que evitava olhar, não porque encontre uma explicação definitiva para sua dor, mas porque deixa de organizar toda a sua existência em torno da fuga dela.
A psicanálise não promete apagar perdas nem oferecer encerramentos completos. O que ela indica é outra possibilidade: que o sujeito possa construir uma relação diferente com aquilo que o marcou, sem precisar permanecer eternamente capturado pela repetição.
Talvez seja justamente aí que Mare of Easttown encontre tanta ressonância. Sob a narrativa policial, ela fala de algo profundamente humano: das marcas que permanecem, dos silêncios que estruturam uma vida e do trabalho, sempre inacabado, de encontrar palavras para aquilo que um dia pareceu impossível de dizer.
Ficha técnica:
Título original: Mare of Easttown
Ano de lançamento: 2021
País de origem: Estados Unidos
Formato: Minissérie (7 episódios)
Gênero: Drama policial, suspense e mistério
Criador e roteirista: Brad Ingelsby
Direção: Craig Zobel
Protagonista: Kate Winslet, no papel de Mare Sheehan
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