Texto de opinião e um olhar psicanalítico sobre o jogo Brasil x Noruega da Copa do Mundo da FIFA 2026.
Será que realmente acreditávamos que o Brasil seria campeão da Copa do Mundo? A pergunta pode parecer estranha depois de uma eliminação, mas talvez ela seja mais importante do que discutir esquemas táticos, escalações ou erros individuais.
A derrota da Seleção Brasileira para a Noruega nas oitavas de final certamente produzirá inúmeras análises. Falarão da escalação, das substituições, do esquema tático, da preparação física, da marcação adversária e dos erros individuais.
A Noruega parecia saber exatamente o que pretendia fazer. Marcava bem, ocupava os espaços, suportava a pressão e permanecia no jogo. O Brasil, ao contrário, parecia oscilar entre momentos de talento e momentos de abatimento.
Não me refiro apenas aos erros técnicos, pois erros fazem parte do futebol. Eu me refiro ao efeito produzido pelo erro, pois uma equipe coesa não deixa de acreditar em si mesma depois da primeira falha.
Mas o que se viu foi algo diferente. A cada dificuldade, parecia crescer a sensação de que a derrota já estava anunciada. Como se os jogadores não estivessem enfrentando apenas um adversário do outro lado do campo, mas também uma história que já conheciam de cor.
A história do fracasso.
O fantasma do "vai acontecer de novo".
A ideia do "nunca dá certo".
Mas talvez haja outra pergunta possível: será que o Brasil perdeu apenas para a Noruega?
Como expectadora com entendimento sobre futebol tendendo a zero, mas com uma leitura do humano tendendo ao infinito, foi impactante ver a velocidade com que perder o pênalti abateu a equipe e contaminou o expectador.
Neste momento, talvez o time de jogadores começou a acreditar mais na derrota do que na vitória.
Porque uma coisa é perder para um adversário melhor, outra coisa é começar a perder para a ideia da derrota.
Do ponto de vista psíquico, esse fenômeno fala sobre algo profundamente humano: o momento em que o medo do fracasso se torna maior do que a aposta na vitória.
A primeira falha abriu uma rachadura e, por ela, saíram o fantasma do 7x1, a pressão da camisa canarinho, a expectativa da torcida, a dúvida sobre si mesmo enquanto jogador da Seleção Brasileira e a dificuldade de se perceber funcionando como coletivo em prol de vencer o jogo.
O futebol tem algo em comum com a clínica psicanalítica: o que está dentro de campo é visto do lado de fora.
O jogador não enfrenta apenas a realidade. Ele enfrenta também o que imagina sobre a realidade e talvez por isso algumas derrotas comecem antes do apito final.
Não porque o resultado esteja decidido, mas porque o jogador já começou a acreditar nele.
Em vários momentos da partida, tive a impressão de assistir a um grupo que deixava de jogar o jogo presente para jogar contra os fantasmas do passado. E fantasmas têm uma vantagem curiosa: eles não precisam ser reais para produzir efeitos reais.
Muitas vezes o adversário está do outro lado do campo, mas outras tantas vezes o adversário está dentro de si e o futebol é um lugar privilegiado para observar este fenômeno psíquico, porque o corpo denuncia o que a fala esconderia.
O jogador não precisa dizer: "Estou inseguro”, pois a insegurança aparece no passe errado, no pênalti desperdiçado, na hesitação, na dificuldade de decidir, no medo de arriscar.
O corpo fala.
O que está dentro aparece fora.
Porque, olhando por esse ângulo, a desorganização do time não seria apenas tática, ela seria também psíquica. Uma equipe sem coesão em campo pode revelar uma fragilidade do vínculo grupal e um time excessivamente dependente de individualidades pode revelar a dificuldade de sustentar um projeto coletivo.
Isso não significa que a causa seja psicológica, mas significa que o psicológico também está em jogo. E é aqui que Freud pede licença para entrar em campo e se perguntar: o que acontece quando a realização de um desejo se aproxima?
Porque a vitória não produz apenas alegria, ela também produz responsabilidade, expectativa, exposição e cobrança.
Às vezes, o sujeito sabe lidar melhor com o fracasso do que com a conquista, uma vez que há derrotas que começam quando a possibilidade da vitória se torna assustadora demais.
Isso não explica o resultado do jogo, mas abre uma reflexão muito mais rica do que discutir quem perdeu o pênalti, porque aí você deixa de falar apenas da Seleção e passamos a falar sobre nós.
Quantas vezes nós abandonamos um projeto, um amor, um concurso, uma mudança de vida ou uma oportunidade porque, de algum modo, o sucesso também nos assusta?
Aí você sai do futebol e entra na condição humana.
Freud escreveu sobre aqueles que fracassam quando estão próximos de realizar um desejo. Não porque lhes falte capacidade, mas porque a proximidade da realização pode despertar conflitos que permaneciam adormecidos, pois a possibilidade do êxito nem sempre produz tranquilidade. Às vezes produz angústia.
Afinal, o que acontece quando o que desejamos parece finalmente ao alcance das mãos?
O que acontece quando já não podemos atribuir ao mundo, ao acaso ou às circunstâncias a responsabilidade pelo fracasso?
O que acontece quando vencer se torna uma possibilidade concreta?
É por isso que alguns sujeitos abandonam projetos quando estão prestes a dar certo, que algumas relações terminam justamente quando começam a se tornar importantes e que algumas pessoas desistem quando a linha de chegada já está próxima.
A derrota, por mais dolorosa que seja, pode ser familiar. O êxito, não.
Talvez por isso Freud tenha se interessado por aqueles que pareciam exilados pelo próprio sucesso. Pessoas que, diante da realização possível, encontravam uma forma de retornar ao lugar que já conheciam: o lugar da falta, da perda e do fracasso.
Não estou afirmando que foi isso que aconteceu com a Seleção Brasileira, mas é difícil não se perguntar, pois havia algo que parecia escapar. E escapou...
Algo que não se resolve apenas com treinamento, mas que diz respeito à capacidade de permanecer no jogo quando a realidade deixa de corresponder ao treino imaginado.
Talvez o problema não tenha sido a primeira falha, mas tudo o que a primeira falha convocou e trouxe para a cena vista por milhares de expectadores: a camisa amarela tornou-se pesada e talvez amarela em mais de um sentido, pois amarelou.
Acho que aqui está a maior lição daquela derrota: uma partida só termina quando acaba, pois enquanto existe jogo, existe possibilidade.
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