O que a psicanálise escuta em "Filho do Dono", de Flávio José?
O que a psicanálise escuta em "Filho do Dono", de Flávio José?
Texto com um olhar psicanalítico sobre a música "Filho do Dono" de Flávio José, composição de Petrúcio Amorim.
"Filho do Dono", interpretada por Flávio José e composta por Petrúcio Amorim, é uma daquelas canções que ultrapassam a crítica social. Ela não apenas denuncia a desigualdade, a violência ou a indiferença. Ela coloca o sujeito diante de uma pergunta ética: qual é a minha participação no mundo que critico?
É uma pergunta profundamente psicanalítica.
Desde Freud, a psicanálise parte da ideia de que o sujeito não existe isoladamente, pois ninguém nasce fora da linguagem, da história ou da cultura. Antes mesmo de existir, já somos esperados por nomes, expectativas, discursos, valores e ideais que antecedem nossa chegada ao mundo.
Somos herdeiros.
E é justamente essa condição de herdeiros que parece atravessar toda a música. A frase "Eu não sou dono do mundo, mas tenho culpa porque sou filho do dono." é muito emblemática, pois não fala, necessariamente, de culpa moral nem de culpa jurídica.
Na psicanálise, a culpa é um conceito complexo. Ela pode surgir quando o sujeito transgride uma lei, mas também pode aparecer quando ele permanece excessivamente identificado às exigências do Supereu, instância psíquica que cobra, exige, acusa e nunca parece satisfeita.
Entretanto, a importância dessa frase talvez esteja não esteja na culpa, mas no que ela revela: a impossibilidade de ocupar uma posição de completa inocência diante da cultura e da sociedade.
Não somos donos do mundo e nem estrangeiros vivendo dentro dele, pois ocupamos estruturas que existiam antes de nós.
Recebemos uma língua, uma história, uma organização social, privilégios, perdas, desigualdades, preconceitos e formas de amar. Em outras palavras: somos sujeitos constituídos por uma herança simbólica.
A questão que a música levanta não é "Quem é o culpado?", mas "O que fazemos com aquilo que herdamos?". Essa mudança de pergunta é profundamente psicanalítica, pois o mal-estar não é um acidente, mas uma de suas condições de existência.
Para viver em sociedade, o ser humano precisa renunciar à satisfação imediata de seus impulsospois a vida coletiva exige limites, leis e pactos que tornam possível a convivência, mas essas renúncias têm um custo psíquico. É dessa tensão que nasce o mal-estar.
A cultura, portanto, protege e, ao mesmo tempo, produz sofrimento.
É nesse ponto que a música Filho do Dono encontra a psicanálise. Ao afirmar que "o diário desse mundo tá na cara", a canção sugere que a desigualdade, a violência e a exclusão não são acontecimentos isolados ou desvios ocasionais. Elas fazem parte das contradições da própria organização social.
Isso não significa que sejam inevitáveis ou que não devam ser combatidas. Significa apenas que não podemos compreendê-las como simples falhas de um sistema que, em essência, funcionaria perfeitamente.
Freud nos convida a abandonar essa ilusão. O conflito não é um defeito da civilização; ele é constitutivo dela. E é justamente porque o mal-estar é estrutural que cada sujeito é convocado a encontrar uma forma singular de responder a ele, em vez de imaginar que um dia será possível eliminá-lo completamente.
Logo no início, a canção afirma:
"Não sou profeta, nem tão pouco visionário.
Mas o diário desse mundo tá na cara."
Essa frase desmonta uma fantasia muito comum: a de que o sofrimento social seria invisível e sabemos que não é. A fome, a violência, a desigualdade, a exclusão e a destruição ambiental não estão escondidas, pois temos notícias diariamente. O problema não é a falta de informação e sim a dificuldade de sustentar um olhar sobre aquilo que produz angústia. O mal-estar, portanto, é parte da própria condição humana.
Um dos trechos mais dolorosos da música diz:
"O desespero no olhar de uma criança,
A humanidade fecha os olhos pra não ver."
Esse talvez seja um dos momentos mais psicanalíticos da canção. A humanidade "fecha os olhos" não porque seja cega, mas porque olhar produz angústia.
Freud descreveu diversos mecanismos de defesa utilizados pelo psiquismo para lidar com aquilo que ameaça seu equilíbrio e entre eles estão a negação, o recalque e o desmentido. A recusa de olhar para o sofrimento do outro pode funcionar exatamente dessa maneira: uma tentativa de preservar a ilusão de que estamos protegidos.
Outro verso sintetiza uma crítica poderosa: "Desigualdade rima com hipocrisia."
Na psicanálise, frequentemente existe uma distância entre aquilo que o sujeito diz e aquilo que seu desejo sustenta, uma vez que não somos inteiramente transparentes para nós mesmos. Podemos defender, conscientemente, determinados valores e, ao mesmo tempo, participar de práticas que os contradizem. Esse descompasso entre discurso e desejo produz sintomas individuais.
Talvez possamos pensar que também produz sintomas sociais, pois a desigualdade deixa de ser apenas um problema econômico e se revela uma contradição estrutural da própria cultura.
Em outro verso, a música afirma:
"Televisão: fantasia e violência.
Aumenta o crime e cresce a fome do poder."
A expressão "fome do poder" merece uma leitura cuidadosa. Na psicanálise, o desejo nunca encontra satisfação definitiva. Desejamos porque somos marcados pela falta, entretanto, quando essa falta deixa de ser reconhecida e o sujeito acredita que poderá eliminá-la pelo domínio, pelo consumo ou pela acumulação, instala-se uma lógica sem limites. O poder passa a funcionar como objeto de gozo: quanto mais se possui, mais se deseja possuir.
Essa é uma lógica muito próxima daquela descrita por Jacques Lacan ao diferenciar desejo e gozo. O desejo reconhece a falta e o gozo tenta apagá-la e justamente por isso nunca encontra repouso.
A frase que atravessa toda a música retorna:
"Eu não sou dono do mundo, mas tenho culpa porque sou filho do dono."
Talvez possamos escutá-la não como culpa e sim como implicação. Na ética da psicanálise, implicar-se significa reconhecer que fazemos parte daquilo que criticamos. Não há exterior absoluto, uma vez que nenhum sujeito vive completamente fora da cultura. Todos participamos, em maior ou menor medida, das formas de organização social que sustentam privilégios e desigualdades.
Isso não significa que todos ocupem a mesma posição, nem que todos sejam igualmente responsáveis, mas significa que ninguém pode sustentar a fantasia de uma completa inocência
Existe uma ideia importante na transmissão psicanalítica: não escolhemos a herança que recebemos. Recebemos uma língua, uma família, uma história, marcas, traumas, privilégios e faltas. Nada disso foi escolhido. Entretanto, há algo que depende de cada sujeito: o destino que dará a essa herança.
É exatamente aí que a música encontra a ética da psicanálise, pois ela não nos convida a carregar uma culpa infinita; ela nos convida a abandonar a posição confortável do espectador.
Não somos donos do mundo e nem meros visitantes. Somos sujeitos implicados na história que herdamos e talvez a pergunta mais importante que Filho do Dono nos deixe não seja:
"Quem é o culpado?"
Mas:
"O que faremos, a partir de agora, com aquilo que recebemos?"
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