Você já observou que há pessoas que entram em um lugar e não precisam dizer nada? Sua presença fala. Não é a roupa, o cabelo ou a pose: é o conforto de estar em sua própria pele e de estar em paz com quem se é. É uma pessoa que tem um brilho silencioso, porém impossível de ignorar.
A coisa mais atraente que existe não é o esforço de parecer, mas a leveza de simplesmente ser.
Uma pessoa que está confortável consigo mesma é muito atraente. Essa característica não nasce do excesso, mas de um certo descanso psíquico. Há a possibilidade de existir diante do outro sem a necessidade constante de autocorreção e vigilância.
Mas chegar a esse lugar não é simples.
Desde cedo aprendemos que ser amado, ser reconhecido ou ser desejado depende de corresponder a determinadas expectativas. Aprendemos a observar o olhar do outro antes mesmo de perceber o que queremos. Aprendemos a ajustar o corpo, o comportamento, as palavras e até os sentimentos para caber em algum lugar.
Talvez por isso tanta energia psíquica seja consumida tentando parecer inteligente, interessante, desejável, bem-sucedido, seguro e em ser tantas outras coisas.
A questão é que viver sob a exigência constante de parecer ser algo produz cansaço. Um cansaço que nem sempre é percebido, porque foi normalizado. Aos poucos, a espontaneidade dá lugar à vigilância e a pessoa passa a habitar a própria vida como quem está permanentemente diante de uma banca examinadora.
Não é raro que a busca por ser atraente produza justamente o efeito contrário: quanto maior o esforço para controlar a imagem, menor a possibilidade de presença.
Do ponto de vista psicanalítico, esse conforto aparece quando a relação com a própria falta se torna menos persecutória. Quando o sujeito já não tenta tamponar cada buraco com desempenho, sedução ou aprovação. Ele sabe, ainda que não formule, que não será completo e deixa de lutar contra isso. É aí que a presença ganha densidade: não há esforço excessivo, nem encenação e nem promessa implícita de perfeição.
Talvez seja essa uma das razões pelas quais algumas pessoas nos impressionam tanto. Não porque sejam perfeitas, mas porque não parecem estar em guerra consigo mesmas.
Elas não venceram todas as inseguranças, não resolveram todos os conflitos e provavelmente não eliminaram todas as dúvidas, mas já não organizam a vida em torno da tentativa de escondê-las.
Há uma diferença importante entre ter uma falta e ser governado por ela.
Quando a falta deixa de ocupar o centro da cena, algo se torna possível: o desejo pode circular sem precisar se disfarçar de performance.
Será que o que atrai, então, é a segurança exibida? Talvez não.
Há quem sustenta o próprio lugar, com falhas, silêncios e limites e produz um efeito interessante: a pessoa não captura, mas convoca. Não seduz pelo brilho, mas pela consistência.
Ser atraente, nesse sentido, não é uma estratégia de relacionamento, mas um modo próprio, singular de estar no mundo. É ocupar o próprio lugar sem se oferecer em excesso, sem se desculpar pela sua existência e sem tentar preencher o outro.
Há uma ética aí: a de não se fazer objeto nem promessa. Talvez o que mais atrai o outro seja justamente o que a trai: bancar o próprio desejo. Porque quem ocupa o próprio lugar não está tentando seduzir. E, ainda assim, seduz.
A pessoa é traída pela própria consistência. Ela não está se oferecendo ao olhar do outro. Mas o olhar do outro vai até ela mesmo assim.
Isso, inclusive, tem algo de muito lacaniano. O desejo aparece justamente onde o sujeito deixa de se organizar inteiramente para satisfazer o desejo do Outro.
Bancar o próprio desejo talvez não signifique fazer tudo o que se quer, nem ignorar o outro. Significa sustentar uma posição diante da própria vida.
Há pessoas que passam anos tentando descobrir qual é a imagem capaz de despertar amor. Outras passam a vida tentando adivinhar o que precisam ser para não serem rejeitadas.
Mas o desejo não nasce da adaptação perfeita.
Existe algo profundamente atraente em alguém que não se oferece como mercadoria emocional. Em alguém que não está o tempo todo tentando convencer o mundo de seu valor.
Talvez porque, diante dessa pessoa, também nos sintamos autorizados a abandonar um pouco das nossas próprias performances.
Talvez porque a consistência de si mesmo produza mais desejo do que a perfeição.
Talvez porque o que reconhecemos no outro não seja a ausência de falta, mas a forma singular como ele aprendeu a viver com suas falhas.
E talvez seja justamente isso que chamamos de presença.
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