Jin-ah e a mãe: quando amar se transforma em dívida
Jin-ah e a mãe: quando amar se transforma em dívida
Resenha crítica e um olhar psicanalítico sobre a mãe da protagonista da série “Something in the Rain”, um anti-dorama sul-coeano.
Em Something in the Rain, o conflito central não está apenas no amor entre Jin-ah e Joon-hee. Ele se instala, de forma muito mais profunda e devastadora na relação entre Jin-ah e sua mãe. O que se joga nesta relação mãe e filha não é um embate de gerações no sentido banal, mas a transmissão de um mandato feminino.
A mãe de Jin-ah não odeia a filha. Ela acredita estar protegendo e é justamente aí que o dano acontece.
A mãe opera a partir de uma lógica clara: a de que a vida de uma mulher só é legítima se reconhecida socialmente. Casamento adequado, status, aparência de estabilidade e silêncio diante do sofrimento. Amor, nessa equação, não é escolha, é instrumento.
Jin-ah, por sua vez, não é uma rebelde clássica. Ela não confronta frontalmente. Ela hesita, recua, tenta agradar e tenta explicar. Carrega no corpo e na voz o efeito de anos vivendo sob uma exigência difusa: não decepcione. O problema é que, para a mãe, a decepção não está ligada a falhas concretas, mas à ousadia de desejar fora do script.
Quando Jin-ah ama Joon-hee, o que está em jogo não é apenas a diferença de idade ou a opinião alheia. É algo mais radical: ela escolhe um amor que não rende capital simbólico suficiente. Um amor que não compensa o sacrifício exigido. Um amor que não apaga sua história de fracassos segundo os critérios maternos.
A mãe reage com violência verbal, emocional e simbólica. Não por crueldade gratuita, mas porque o amor da filha ameaça o único modelo de sobrevivência que ela conhece. O que vemos ali é a transmissão de uma ideia antiga e ainda muito viva: amar é pagar e pagar caro.
Há algo profundamente trágico nessa relação porque a mãe não percebe que o que ela chama de proteção é, na verdade, controle travestido de cuidado. Ela exige da filha não apenas obediência, mas gratidão. Tudo vira dívida: a criação, o esforço, o sofrimento passado. Jin-ah não tem o direito de escolher diferente porque carrega o peso de uma história que não é só dela. É a transmissão familiar passada de mãe para filha.
O efeito disso é devastador. Jin-ah não luta apenas contra a desaprovação externa; ela luta contra uma voz internalizada que diz que amar daquele jeito é irresponsável, egoísta e imaturo. O amor deixa de ser refúgio e vira culpa. O desejo passa a exigir justificativa.
A mãe, por sua vez, encarna algo que o dorama expõe com rara honestidade: mulheres que sobreviveram renunciando a si mesmas tendem a exigir que as filhas façam o mesmo. Não por sadismo, mas porque admitir outra possibilidade seria admitir que o próprio sacrifício talvez não fosse inevitável.
E essa é uma verdade insuportável para muitas mães.
Por isso, o conflito entre Jin-ah e sua mãe não se resolve com diálogo fácil nem com redenção plena, porque não se trata de um mal-entendido. Trata-se de modelos inconciliáveis de vida. De um lado, a vida como adaptação. Do outro, a vida como aposta.
O que Something in the Rain mostra, com uma delicadeza quase cruel, é que, para algumas mulheres, amar implica romper com a mãe não no sentido literal, mas simbólico. Romper com o mandato de que o amor deve compensar o sacrifício e de que a felicidade só é válida se reconhecida pelo outro.
Jin-ah paga um preço alto por tentar amar diferente. Mas o dorama não romantiza isso. Ele não promete vitória plena, apenas deixa claro que, naquele ponto, não amar também teria um custo insuportável.
E talvez seja isso que torna essa história tão pouco melosa e tão verdadeira: ela não nos diz que o amor vence tudo. Ela nos mostra que, às vezes, amar é apenas não aceitar mais viver em dívida.
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Ficha Técnica:
Título: Something in the Rain
Gênero: Romance, Drama, Realismo
País/Ano de Lançamento: Coreia do Sul/2018
Episódios: 16
Onde assistir: Netflix
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