Texto de opinião e um olhar psicanalítico sobre o jogo Brasil x Japão da Copa do Mundo da FIFA 2026.
Na partida entre Brasil e Japão, pelas oitavas de final da Copa do Mundo, Casemiro passou boa parte do jogo sob suspeita. Parecia deslocado. Perdeu bolas, errou passes e esteve distante da intensidade que se espera de um jogador da sua experiência.
Nas redes sociais, os julgamentos surgiram rapidamente. Para muitos torcedores, ele estava mal, alguns pediam sua substituição e outros o apontavam como um dos problemas da equipe.
O futebol tem algo em comum com as redes sociais: ambos produzem interpretações em tempo real. A cada lance, uma conclusão, a cada erro, um veredito e a cada minuto, uma nova narrativa.
Mas o jogo ainda não havia terminado e então veio o gol.
Em poucos segundos, a leitura da partida mudou. O jogador que parecia comprometer o desempenho da seleção tornou-se o responsável pela classificação. O herói substituiu o vilão. O mesmo Casemiro. O mesmo jogo. Os mesmos noventa minutos. O que mudou foi a leitura.
Talvez seja justamente aí que o episódio se torne interessante para além do futebol.
O futebol talvez nos ensine algo sobre a forma como produzimos sentido: temos pressa em concluir. Diante de um acontecimento isolado, queremos saber imediatamente o que ele significa, mas nem sempre o sentido está disponível no instante em que algo acontece.
Há algo de muito contemporâneo nessa impaciência. Vivemos cercados pela exigência de respostas rápidas, opiniões instantâneas e conclusões definitivas. Tudo precisa fazer sentido agora, ser resolvido agora como se o tempo fosse apenas um atraso inconveniente entre nós e as certezas que desejamos ter.
Temos uma tendência a acreditar que os acontecimentos possuem um significado evidente e imediatamente acessível. Queremos saber logo o que algo quer dizer. Queremos decidir o quanto antes quem acertou, quem fracassou, quem venceu, quem perdeu. O problema é que a experiência humana raramente funciona dessa maneira.
Na psicanálise, essa questão aparece de outra forma. Um acontecimento da vida raramente possui um significado definitivo desde o início. Muitas vezes, é apenas depois, à luz de novos acontecimentos, de novas palavras e de novas experiências, que algo pode ser compreendido de maneira diferente.
Um gol no fim do jogo pode mudar a leitura dos 89 minutos anteriores. Talvez seja justamente aí que o futebol encontre a psicanálise. Freud chamou de posterioridade (Nachträglichkeit) o processo pelo qual um acontecimento adquire novos significados a partir do que vem depois.
O sentido não está dado de uma vez por todas. Ele se produz na leitura que fazemos sobre o que vivemos.
Freud chamou atenção para isso em diferentes momentos de sua obra. Um acontecimento não é apenas o que ocorreu; ele também é o que, mais tarde, será feito dele, uma vez que o passado não permanece intacto.
O passado é constantemente relido, reinterpretado e reorganizado por experiências posteriores.
O gol de Casemiro não apagou os erros cometidos durante a partida. Os passes errados continuaram errados, as bolas perdidas continuaram perdidas, mas o acontecimento final produziu uma nova narrativa capaz de reorganizar a percepção de tudo o que veio antes.
Na vida cotidiana fazemos algo semelhante. Quantas vezes julgamos um relacionamento, uma escolha profissional, uma mudança de cidade ou uma decisão importante antes que a história tenha tido tempo de acontecer? Quantas vezes decretamos o fracasso de algo quando ainda estamos no primeiro tempo?
Talvez uma das lições mais difíceis seja suportar o não saber, a falta de garantias do futuro, permanecer algum tempo sem concluir e resistir à tentação de transformar cada acontecimento em uma sentença definitiva.
O jogo entre Brasil e Japão terminou com Casemiro como herói da classificação, mas o que torna essa história interessante não é apenas o gol; é a rapidez com que nossa interpretação mudou. A facilidade com que passamos da condenação ao elogio e a forma como acreditamos compreender uma história antes que ela termine.
No futebol, aprendemos isso com frequência. Aos 70 minutos, um jogador pode parecer o vilão da partida e aos 90, pode ser carregado nos ombros.
Porque, no futebol como na vida, o problema nem sempre é errar na interpretação. Às vezes, o problema é acreditar que já chegou a hora de interpretar.
Fora dos estádios, talvez valha a mesma cautela. Nem sempre sabemos o que um acontecimento significa quando ele acontece.
Às vezes, é preciso esperar o fim do jogo.
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