Resenha crítica e um olhar psicanalítico da série "Undone" (2019), de Hisko Hulsing.
Undone se apresenta, à primeira vista, como uma série sobre viagem no tempo. Mas essa é apenas a superfície, talvez a mais sedutora. Undone usa a técnica de animação rotoscópica, onde os atores são filmados e, em seguida, suas performances são desenhadas, criando um estilo visual único que reflete a natureza surreal da história.
Seduz e muito, porém o que a série realmente encena é algo mais íntimo e mais difícil de sustentar: o luto que não encontra lugar, o trauma familiar que retorna em formas estranhas e a fantasia como tentativa de tornar o insuportável um pouco mais digerível.
Você vai assistindo e sendo tomado pela produção, que mistura drama, fantasia e elementos de ficção científica em uma narrativa complexa e profunda que explora o tempo, a consciência e as relações familiares.
Alma perde o pai de forma abrupta. Não há preparação, não há elaboração prévia, não há despedida. Há apenas um buraco. E é nesse buraco que a narrativa se instala.
Após o trauma, Alma começa a experimentar a realidade de maneira diferente. O pai retorna, não como lembrança, mas como presença. Não como passado, mas como promessa de que algo ainda pode ser feito. Ela passa a ser visitada pelo espírito de seu falecido pai, que a orienta a usar sua recém-descoberta habilidade de manipular o tempo para investigar o mistério de sua morte.
A fantasia do “voltar no tempo” aparece então como uma solução tentadora: se eu puder refazer, talvez eu não precise perder. Se eu puder corrigir o evento traumático, talvez a dor deixe de existir. A série expõe com delicadeza esse movimento psíquico tão comum diante do luto: a recusa em aceitar que algo se perdeu de modo definitivo.
A fantasia aqui não é apresentada como delírio grosseiro, mas como recurso sofisticado. Ela organiza a experiência, dá forma ao caos, cria uma narrativa onde antes havia apenas ruptura. É justamente por isso que funciona e é justamente por isso que engana. Porque oferece sentido onde talvez só exista falta.
A fantasia funciona porque organiza o indizível. Ela cria um arranjo onde antes havia apenas a experiência bruta da perda, oferecendo a sensação de que algo pode ser compreendido, corrigido, rearranjado. Mas é justamente aí que se instala o engano: não porque a fantasia seja mentira, e sim porque ela promete sentido onde a experiência talvez não se deixe significar.
Há dores que não pedem explicação, pedem lugar.
Quando a fantasia se transforma em projeto de conserto do passado, da família e da morte, ela deixa de amparar e passa a capturar. O luto, então, não se elabora: se desloca para a tentativa insistente de fechar o que, por estrutura, permanece em falta.
Quando o luto não encontra lugar, ele tende a se transformar em tarefa. Algo precisa ser feito, resolvido e concluído, como se a perda fosse um problema técnico à espera de solução. O sujeito passa a trabalhar contra o tempo, contra a ausência e contra a própria impossibilidade. Em vez de viver a perda, tenta dominá-la. Mas o que se fecha à força retorna de outro modo: como exaustão, rigidez e isolamento. O sofrimento deixa de circular e se fixa na exigência de que nada falte, justamente ali onde a falta é constitutiva.
Há ainda algo que a série toca de modo sutil: a dificuldade radical de lidar com a morte. No inconsciente, não há um significante que dê conta dela. A morte não se representa, não se simboliza por completo, não se organiza como experiência assimilável.
O que se perde não encontra palavra suficiente, e por isso retorna em formas deslocadas, como presença imaginada, missão, urgência, repetição ... A fantasia aparece, então, como tentativa de contornar esse vazio estrutural, oferecendo imagens onde falta inscrição. Não para resolver a perda, mas para torná-la suportável o bastante para continuar.
Undone não resolve a ambiguidade entre doença mental, percepção ampliada ou experiência subjetiva extrema. E faz bem em não resolver. A série sustenta o desconforto de não saber se estamos diante de uma psicose, de um luto que tomou o corpo inteiro ou de uma linguagem possível para aquilo que não encontra palavras. Essa indeterminação é um de seus pontos mais importantes da trama.
O trauma familiar, longe de ser apenas um evento isolado, aparece como algo transmitido, repetido e silenciado. Há segredos, culpas não nomeadas, pactos de silêncio. O passado não está atrás: ele insiste e insiste e insiste. E quando não é simbolizado, retorna sob a forma de missão, de urgência, quase como uma certeza absoluta.
A fantasia de consertar o tempo é, nesse sentido, profundamente humana. Mas também é um engodo. Não porque seja falsa, mas porque promete uma saída onde talvez só exista travessia. Não há como apagar o acontecido. O que existe, quando existe, é a possibilidade de sustentar a perda sem precisar transformá-la em delírio reparador.
Undone não oferece conforto fácil. Ela mostra o quanto é sedutor acreditar que a dor pode ser corrigida como um erro de cálculo e o quanto essa crença pode custar caro: o isolamento, o rompimento dos laços e a dificuldade de habitar o presente.
A série foi amplamente elogiada por sua originalidade, atuações marcantes e a forma como aborda questões filosóficas e existenciais nos oferecendo uma reflexão profunda sobre o tempo, a vida e o que significa estar no controle de seu próprio destino.
No fim, a série parece nos lembrar de algo essencial: nem toda fantasia é criação. Algumas são defesas. E nem toda defesa precisa ser desmontada à força, mas reconhecida como aquilo que é. Um modo de continuar vivendo quando o real se impõe sem pedir licença.
Ficha Técnica:
Título original: Undone
Ano de estreia: 2019
Temporadas: 2
Episódios: 16 (8 por temporada)
Direção: Hisko Hulsing
Plataforma: Amazon Prime Video
Gêneros: Drama, fantasia, ficção psicológica
Temas centrais: luto, trauma familiar, memória, tempo, fantasia, saúde mental
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