Chungking Express:
vidas amontoadas, mas amores velozes?
Chungking Express:
vidas amontoadas, mas amores velozes?
Resenha crítica e um olhar psicanalítico do filme “Chungking Express” (1994), de Wong Kar-Wai, cujo título original entrega seu tema: amores e términos num grande centro urbano.
Hong Kong, enquanto pulsa em neon, com seus corredores, lanchonetes, apartamentos, telefones, policiais, desconhecidos e encontros improváveis, ela devora seus habitantes em fragmentos de sons e cores mutantes, enquanto a câmera enlouquece tentando capturar o fluxo frenético das coisas: corre, acelera, desfoca, repete... As pessoas passam umas pelas outras como se a cidade fosse grande demais para permitir que duas histórias se encontrem por muito tempo.
No meio da floresta metropolitana que é Chungking Mansions, local onde o filme foi ambientado em “expressos” 23 dias, duas histórias sobre homens que enfrentam paixões arquetípicas: são histórias de solidão, amores perdidos e tentativas de felicidade em uma época que parece que já se viu de tudo, mas que não significa que a poesia ainda faça folia em suas vidas.
E é justamente neste cenário que está uma das temáticas mais interessantes do filme: ele fala de solidão sem ser um filme triste.
Wong Kar-Wai traz como personagens dois homens recém-saídos de relações amorosas e, em vez de construir um drama sobre corações partidos, transforma o desencontro em algo quase brincalhão.
Um compra latas de abacaxi com data de validade para vencer para fazer o countdown de 30 dias para esperar a volta da mulher amada.
O outro conversa com os objetos de seu apartamento como sua espécie de poesia, dando sentimentos e subjetividade a coisas inanimadas: “Será que deixei a torneira aberta ou é o apartamento que está ficando mais choroso? Eu sempre achei que ele lidaria bem com isso. Não esperava que chorasse tanto. Quando as pessoas choram, podem secar os olhos com lenços. Mas, quando um apartamento chora, é preciso muito para enxugar.” Esta é uma das cenas mais belas deste filme, que exprime beleza do início ao fim.
Uma mulher de peruca loira atravessa a noite como uma personagem saída de um filme noir. Faye Wong invade um apartamento enquanto ouve California Dreamin’ repetidamente. Tudo é um pouco absurdo e funciona justamente porque há uma enorme liberdade na maneira como Wong Kar-Wai filma o desejo.
As pessoas desejam, imaginam, lembram e fantasiam. Às vezes encontram alguém, outras vezes não e eventualmente o encontro acontece quase por acaso e produz uma mudança que ninguém havia planejado.
O acaso parece ser o grande roteirista do filme.
E há o estilo. Muito estilo. A fotografia, os movimentos da câmera, o step printing, os neons, a música, os enquadramentos apertados, a velocidade das imagens: tudo neste filme transforma uma história banal em alguma coisa maior. Não porque a história precise ser grandiosa, mas porque a experiência de estar vivo pode ser cinematográfica até nas situações mais ordinárias.
É impossível falar de Chungking Express sem falar dos anos 90. A primeira parte flerta com o cinema noir, com a mulher fatal, o mistério, os neons e a velocidade. A segunda muda completamente de registro e se aproxima de uma comédia romântica, com aquele humor leve e meio absurdo dos filmes que a gente assistia na Sessão da Tarde.
É como se Wong Kar-Wai juntasse dois imaginários muito diferentes e fizesse os dois caberem no mesmo filme e talvez seja justamente essa mistura que o torna tão gostoso de assistir.
Talvez seja por isso que Chungking Express continue tão presente nas listas de filmes amados e nas conversas cinéfilas: ele tem personalidade. Você reconhece um filme de Wong Kar-Wai em poucos segundos.
É um filme sobre pessoas solitárias, mas não é triste.
Fala sobre separações, mas é leve.
Traz a temática do desejo, mas não é pesado.
Gira em torno de uma cidade frenética, mas encontra momentos de suspensão.
Aborda o fim de algumas coisas, mas mostra personagens profundamente apaixonados pelo que ainda pode começar.
Será que esta é a razão de se falar dele com tanto carinho? Não é apenas “um filme bom”. Para muita gente, ele parece um filme que nos faz companhia.
Ouso a dizer que é nas relações amorosas que Chungking Express encontre sua maior força.
As duas histórias começam depois de um término e Wong Kar-Wai se interessa justamente por esse intervalo: o que acontece entre o fim de uma relação e o momento em que conseguimos, de fato, deixá-la ir?
O primeiro policial estabelece para si uma espécie de prazo. Compra latas de abacaxi que vencem em 1º de maio, exatamente trinta dias depois do término, e decide que, se até lá sua ex-namorada não voltar, ele precisará aceitar que a relação terminou.
É uma tentativa curiosa de transformar o sofrimento em alguma coisa mensurável. Como se fosse possível estabelecer uma data para o desejo deixar de existir.
Mas o desejo não obedece a calendários.
Eis que, quando decorre o prazo estabelecido, ele encontra a mulher de peruca loira após comer as 30 latas de abacaxi e se dar conta que a sua amada não voltaria... #absolutecinema!
Com o segundo policial, a situação é outra. Ele ainda está ligado à mulher que o deixou, mas encontra uma nova possibilidade de relação sem exatamente procurá-la. Faye Wong surge de maneira quase inesperada, entra na vida dele (e até no apartamento dele), enquanto ele permanece alheio ao que está acontecendo, vivendo o seu luto.
Há algo de muito bonito nessa forma de falar sobre o amor: ninguém está realmente no controle do que sente, de quem deseja ou de quando está pronto para começar outra história.
Um término também não acontece de uma vez.
A relação pode ir terminando antes que o sentimento acabe.
Uma pessoa pode ir embora enquanto a outra ainda está tentando compreender o que aconteceu. Podemos continuar conversando mentalmente com quem já não está mais ali.
Podemos guardar objetos, músicas, lugares, hábitos e pequenas coisas que passam a carregar uma presença que já não existe.
São cenas cotidianas retratadas em Chungking Express com uma beleza e singularidade que nos relembram que nenhuma história é única.
É por isso que o segundo policial conversa com o apartamento e talvez não seja tão absurdo assim. Quem nunca conversou com um objeto?
Quando alguém vai embora, o mundo continua exatamente onde estava: a torneira, o pano, o sabonete e os móveis. O que está fora parece igual, mas só nós sabemos que alguma coisa mudou. Por dentro.
E talvez seja essa a delicadeza de Chungking Express: Wong Kar-Wai não transforma o fim de um amor em uma grande tragédia. Ele observa os pequenos detalhes de quem ficou.
A espera, a fantasia, a tentativa de criar prazos para sair da fossa, a dificuldade de aceitar o término, a lembrança que aparece quando menos se espera e, finalmente, a possibilidade de desejar outra pessoa.
Porque o filme também fala sobre isso: o amor não substitui o amor anterior como quem troca uma coisa por outra. Há um intervalo, um hiato, uma suspensão, uma confusão e uma sobreposição de sentimentos e às vezes uma nova história começa justamente quando ainda estamos tentando entender a anterior.
Talvez por isso o filme seja tão fácil de (se) reconhecer, mesmo para quem nunca esteve em Hong Kong, nunca viveu aquela época e nunca experimentou nada parecido com aqueles personagens.
Porque as circunstâncias são particulares, mas os sentimentos são universais.
A cidade pode ser Hong Kong, a música pode ser dos anos 90, os apartamentos podem ser apertados, as luzes podem ser de neon e a estética pode ser inconfundivelmente de Wong Kar-Wai, mas a experiência de ser deixado, esperar alguém voltar, criar fantasias, tentar esquecer, se apaixonar novamente e descobrir que a vida continua é universal.
É aí que Chungking Express deixa de ser apenas um filme muito estiloso dos anos 90 e se torna um clássico, porque os anos passam, as cidades mudam, as músicas envelhecem, os modos de se relacionar se transformam, mas algumas coisas continuam sendo profundamente humanas.
E talvez um clássico seja justamente isso: uma história que consegue falar de um lugar e de um tempo muito específicos e, ainda assim, fazer alguém, em qualquer outro lugar do mundo, pensar: “eu sei exatamente o que é isso.”
Ficha técnica de Chungking Express:
Título original: 重慶森林 (Chung Hing sam lam)
Título no Brasil: Amores Expressos
Direção e roteiro: Wong Kar-wai
Ano: 1994
País: Hong Kong
Gênero: drama, romance, comédia
Duração: 102 minutos
Fotografia: Christopher Doyle, Andrew Lau
Montagem: William Chang
Música: Frankie Chan, Roel A. García e diversos artistas
Produção: Jet Tone Production
Elenco principal: Brigitte Lin, Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu-wai e Faye Wong.
Curiosidades: o filme é dividido em duas histórias de amor que se passam em torno de Chungking Mansions, em Hong Kong. A primeira acompanha o policial 223; a segunda, o policial 663. As duas narrativas não se cruzam diretamente, mas compartilham o mesmo universo de encontros casuais, términos e possibilidades.
Chungking Express foi filmado em um período bastante curto, enquanto Wong Kar-Wai trabalhava simultaneamente em outro projeto. A própria urgência da produção acabou contribuindo para aquela estética espontânea, veloz e experimental que vemos no filme.