Texto de opinião com um viés psicanalítico sobre expressões de linguagem naturalizadas em nossa sociedade.
Há expressões que passam pela boca como quem pede licença. “Foi só uma mentira branca.”
Mas por que branca?
A língua nunca escolhe ao acaso. Ela guarda camadas, sedimentos e restos de histórias que continuam operando mesmo quando ninguém mais se lembra de onde vieram.
A expressão “mentira branca” parece inofensiva, mas carrega uma lógica simbólica bastante antiga: associar o branco ao que é bom, leve e aceitável.
“Mentira branca” significa uma mentira pequena, inofensiva e socialmente tolerável. O problema não é a intenção individual de quem fala; é o campo simbólico em que isso nasceu. Será?
Historicamente, no Ocidente, o branco foi associado à pureza, à inocência e à bondade, enquanto o preto ou negro foi associado ao sujo, ao perigoso e ao maligno.
Essa oposição aparece em diversas tradições culturais e religiosas. Um exemplo clássico é a associação entre o bem e a luz, entre o mal e a escuridão, algo presente desde a teologia cristã até a literatura europeia.
Essa relação não começou como uma categoria racial moderna, mas foi incorporada ao racismo quando as hierarquias raciais se consolidaram, especialmente a partir da colonização europeia e da escravidão nas Américas. A ideia de que o que é branco é melhor, mais puro ou mais civilizado foi utilizada para justificar desigualdades muito concretas.
Então, quando dizemos “mentira branca”, ainda que inconscientemente, reforçamos a associação do branco com o que é aceitável, mantemos viva uma hierarquia simbólica de valor e reproduzimos uma lógica cultural que ajudou a sustentar o racismo estrutural.
Não é que quem usa a expressão seja racista, porém, a linguagem carrega heranças históricas e algumas metáforas continuam funcionando como pequenas engrenagens de um sistema maior. Será?
Hoje, muita gente prefere alternativas como “mentira inofensiva”, “mentirinha social” ou “mentira leve”. Trocar a expressão não é apenas para evitar um possível cancelamento linguístico. Talvez seja reconhecer que as palavras não são neutras e que elas ajudam a formar o mundo que habitamos.
Não é que quem utiliza essas expressões seja necessariamente racista. Será?
Por que uma mentira aceitável é chamada de branca? Por que dizemos que alguém está denegrindo uma imagem? Por que um pensamento clareou? Por que determinadas expressões passam de geração em gerações sem que jamais nos detenhamos sobre os sentidos que carregam? O problema é que raramente nos perguntamos por que falamos como falamos.
Essa reflexão pode parecer excessiva. Afinal, trata-se apenas de uma expressão. Contudo, a psicanálise nos ensina que o que parece apenas uma palavra nem sempre é apenas uma palavra.
A linguagem produz um efeito interessante: quanto mais familiar uma palavra se torna, menos a escutamos. Repetimos expressões herdadas da cultura como se fossem naturais, esquecendo que toda palavra tem uma história e que toda história deixa marcas.
Desde Freud, sabemos que a linguagem não é um instrumento neutro colocado a serviço da consciência. Falamos mais do que sabemos. Dizemos mais do que pretendemos dizer. Os significantes carregam histórias, valores, marcas culturais e formas de organizar o mundo que muitas vezes escapam à nossa percepção.
Lacan radicaliza essa ideia ao afirmar que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Isso significa que não somos simplesmente usuários da língua. Somos também falados por ela. Antes mesmo de nascermos, encontramos um mundo povoado por palavras, histórias, valores e classificações. Aprendemos a falar dentro de uma rede simbólica que já estava na sociedade.
É por isso que certas expressões merecem ser escutadas. Não porque revelem uma verdade oculta e definitiva, mas porque mostram como determinadas associações se sedimentam ao longo do tempo até se tornarem normalizadas.
Talvez seja por isso que expressões como “mentira branca” provoquem estranhamento quando observadas mais de perto. Por que a mentira tolerável é branca? Por que a mentira aceitável recebe justamente essa qualificação? O que a cor acrescenta ao sentido?
Perguntas como essas não têm a função de absolver nem de condenar, pois a psicanálise não trabalha pela via do julgamento moral. Seu interesse está em compreender os mecanismos que organizam o discurso.
Quando um paciente fala, não escutamos apenas o conteúdo do que é dito. Escutamos repetições, lapsos, escolhas de palavras e metáforas recorrentes. Escutamos o que emerge sem ter sido planejado. Escutamos o que escapa do discurso pronto.
O mesmo pode ser feito com a cultura.
Uma sociedade também fala através de suas expressões, de seus ditados populares e de suas metáforas aparentemente inocentes. E, como acontece na clínica, o que parece mais banal, às vezes revela algo importante.
As discussões contemporâneas sobre racismo têm chamado atenção para a dimensão simbólica das desigualdades. Não apenas para os atos explícitos de discriminação, mas para os modos pelos quais determinadas hierarquias se inscrevem na linguagem, nas imagens e nos hábitos cotidianos.
Nesse contexto, perguntar se quem utiliza a expressão possui ou não intenções racistas é uma questão insuficiente.
A questão é outra: que associações continuam vivas em nossa língua? Que valores permanecem circulando através de palavras que raramente interrogamos? O que uma cultura considera tão evidente que já não precisa ser explicado?
Talvez a questão não seja simplesmente abandonar ou preservar determinadas expressões. Talvez seja desenvolver a capacidade de interrogá-las, porque o que nunca é questionado tende a parecer inevitável. E é justamente assim que muitos preconceitos continuam circulando: não pela força da convicção, mas pela força do hábito.
Será que é para vigiar cada palavra com culpa moral? Ou seria perceber que pequenas engrenagens simbólicas sustentam estruturas grandes demais para serem vistas de uma só vez?
Trocar “mentira branca” por “mentira leve” ou “mentira social” não resolve o racismo estrutural, mas desloca um ponto. E deslocamentos importam.
Porque o racismo não vive apenas nos atos escancarados. Ele respira também nas delicadezas da língua e, às vezes, é justamente no que parece mínimo que a estrutura se mostra mais eficiente.
A linguagem nunca é apenas um espelho do mundo. Ela participa da construção do mundo que percebemos. Ela nomeia, classifica, hierarquiza e organiza experiências. Por isso, certas expressões podem funcionar como pequenas janelas para estruturas muito maiores.
Talvez não seja possível transformar a realidade apenas trocando palavras, mas também não é possível transformar a realidade sem escutar as palavras que a sustentam.
A psicanálise nos convida justamente a pensar sobre como falamos do mundo que habitamos.
Não para vigiar a fala.
Não para buscar pureza na linguagem.
Mas para sustentar perguntas.
Porque é quase sempre no que parece familiar demais que encontramos o que ainda insiste em falar através de nós. Talvez a pergunta mais importante não seja se devemos abandonar expressões como “mentira branca”, mas por que ela pareceu tão natural durante tanto tempo.
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