"Terceira Metade": quando nem três resolvem o um
"Terceira Metade": quando nem três resolvem o um
Texto de opinião sobre minhas impressões após ver o reality show Terceira Metade da Globoplay, que explora a formação de trisaise as relações não monogâmicas.
Assisti Terceira Metade achando que ia ver um experimento sobre liberdade afetiva, porém vi um experimento sobre falta, exclusão e o que escapa, mesmo quando há mais possibilidades, mais desejo e mais toque.
Terceira Metade é um reality show original Globoplay (2025), apresentado por Deborah Secco, que explora a formação de trisais e as relações não monogâmicas. Com foco na não monogamia, casais buscam uma terceira pessoa para integrar o relacionamento.
Resolvi assistir o programa com uma leitura mais profunda dos afetos envolvidos nos participantes e percebi que é curioso como o discurso da não monogamia no reality vem com um certo ar de maturidade emocional, como se fosse preciso estar mais pronto e mais bem resolvido para viver a três. E talvez seja preciso mesmo. Mas o que aparece ali, nu e cru, é que o número de possibilidades não protege ninguém do que o amor sempre produz: incerteza, comparação e medo de não ser o bastante.
O reality expõe tensões que comumente percebemos nas relações monogâmicas e estas tensões aparecem mais escancaradas na prática da não monogamia, pois abertura para se relacionar não é sinônimo de fluidez e o programa mostra isso com força.
Quando se fala em abertura, costuma-se confundir três coisas diferentes: permissão, desejo e sustentação psíquica. O reality deixa isso claro justamente porque desmonta essa confusão em tempo real.
A abertura para de relacionar aparece como discurso: “sou aberto”, “topo”, “não sou ciumento”, “acredito no amor livre”. Mas abertura, no sentido mais cru, é só autorização simbólica; é dizer “pode” e dizer “pode” não significa saber o que fazer quando acontece.
A fluidez, por outro lado, exige algo muito mais raro: a capacidade de suportar o deslocamento, o olhar que não vem, o tempo que se reparte, o desejo do outro que escapa à nossa centralidade e é exatamente aí que o programa ganha densidade, pois mostra o ponto em que a abertura falha.
O que surge não é fluidez, mas fricção. Fricção entre discurso e afeto, entre ideal e corpo e entre o combinado e o vivenciado. Na não monogamia, como em qualquer laço, o conflito não nasce da pluralidade em si, mas da assimetria.
As pessoas não desejam no mesmo ritmo, não se vinculam com a mesma intensidade e não elaboram a exclusão da mesma forma. A fantasia de fluidez costuma pressupor uma igualdade emocional que simplesmente não existe.
E quando essa igualdade não se sustenta, aparecem cenas muito específicas, como “alguém que topou, mas começa a se encolher”; “alguém que se diz livre, mas cobra prioridade”; “alguém que fala em autonomia, mas sofre por não ser escolhido”, entre outras.
O reality escancara a não sustentação do laço porque retira o véu civilizatório da monogamia. Na monogamia, o ciúme muitas vezes se disfarça em direitos tácitos do casal. Na não monogamia, o ciúme explode na cara de quem tenta lidar com três afetos diferentes ao mesmo tempo. A dificuldade de equilibrar tempo, atenção, validação e desejo fica muito visível, pois não há contrato silencioso protegendo ninguém, então o ciúme não pode se esconder atrás do “isso é errado”. A dor aparece como o que de fato é: efeito do encontro com o desejo do outro.
Por isso, parece mais conflituoso; não porque haja mais conflito, mas porque há menos disfarce. A não monogamia, quando vivida sem elaboração, não suaviza a relação, ouso a dizer que ela o intensifica. Amplifica tudo o que já estava ali: insegurança, rivalidade, medo de exclusão e desejo de ser único. Não cria esses afetos; apenas os expõe.
E talvez o desconforto maior venha daí: perceber que a fluidez não é um ponto de partida, mas, quando acontece, expõe um efeito raro, pois trata-se de um laço que se constrói com muito trabalho simbólico e não apenas com boas intenções.
Muitos participantes se dizem "abertos", mas essa abertura parece estar mais no discurso do que na escuta real. O que se vê são pessoas que querem liberdade, mas ainda esperam exclusividade emocional. Aí mora o nó: a liberdade de um esbarra na necessidade de ser escolhido do outro.
Há ainda a tal da "marmita emocional", ou seja, a sensação de ser o acessório de uma relação principal, aparece com força. Mas esta percepção não é nova, pois nos relacionamentos monogâmicos, também há marmitas emocionais disfarçadas de traição. Nos relacionamentos não monogâmicos, no entanto, ela ganha nome, corpo, voz e dói.
Acho que dói, pois o problema nunca foi o modelo de se relacionar. A questão é o sujeito e a forma como ele lida com o que não pode controlar: o afeto do outro, seu tempo e seu desejo.
A não monogamia tem potência, mas não é mágica, pois não é garantia de fluidez, nem de emancipação. Exige trabalho simbólico, escuta real, acordos vivos e um reconhecimento constante de que o outro não é meu, mesmo que esteja comigo. Mesmo que sejamos três.
Na prática, o que o reality mostra é que somos desiguais no sentir, que o amor não se distribui em partes iguais como quem divide um bolo, que o desejo não obedece à lógica e, principalmente, que o afeto não se organiza como um contrato.
A fantasia, muito presente no discurso da não monogamia romantizada, mas também na monogamia clássica, é que mais amor resolve o mal-estar. Se um não basta, dois bastam; se dois falham, três sustentam. Mas o que o reality ressalta (sem querer, talvez) é que o excesso não cura a falta. Às vezes, o excesso torna a falta mais audível.
O que o programa mostra não é exatamente sobre monogamia vs. não monogamia; mostra o modo como cada sujeito lida com a falta, o desejo e a exclusão e isso excede a forma do arranjo. Três corpos não resolvem o vazio de um, pois o afeto não se multiplica por matemática. Nem três resolvem o um e é daí que tudo começa, pois o um aqui não é a solidão concreta, nem a falta de companhia; é a falta estrutural, aquela que funda o desejo.
No fundo, o programa escancara que o amor, em qualquer formato, é lugar de falta, não de completude e isso é humano demais, seja com um, dois ou três.
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