A psicanálise, especialmente a partir de Freud, tem uma visão bastante crítica e complexa da felicidade, pois longe de entendê-la como um estado ideal ou permanente a ser alcançado, a psicanálise interroga o desejo humano, a tensão entre pulsões e exigências sociais e os limites estruturais da experiência subjetiva.
Freud observa que o ser humano busca prazer e evita o desprazer, mas que essa busca está fadada a impasses. Em O mal-estar na civilização, ele afirma que aquilo que chamamos de felicidade depende de uma coincidência delicada entre a satisfação das necessidades instintuais e o mundo externo. O problema é que essa coincidência nunca se mantém por muito tempo. Ela é parcial, instável e nunca sem perda.
A vida psíquica é regulada pelo princípio do prazer, mas esse princípio entra inevitavelmente em conflito com o princípio de realidade, que exige renúncias. Nesse arranjo, a felicidade não se instala, ela acontece em breves intervalos, mediada por concessões, limites e desencontros. Não é um estado contínuo, mas uma experiência episódica.
Lacan radicaliza essa leitura ao afirmar que o sujeito não se orienta pela felicidade, mas pelo desejo. E o desejo, por estrutura, é faltoso. A ideia de uma felicidade plena pertence ao campo do imaginário como ideal e não como funcionamento do inconsciente. Por isso, insistir na felicidade como meta pode produzir mais sofrimento do que alívio.
Muitas vezes, inclusive, aquilo que alguém nomeia como felicidade está ligado à repetição de um sintoma. A psicanálise não se propõe a tornar o sujeito feliz, mas a abrir possibilidades de deslocamento: de outra relação com o próprio desejo, mesmo que isso não resulte em euforia, estabilidade ou contentamento durável.
A psicanálise não oferece receitas para ser feliz. Talvez ofereça algo mais modesto e mais honesto: a possibilidade de sustentar uma posição diante do desejo, mesmo quando isso implica perda, ambivalência e limites.
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