Entre costuras e alinhavos no tempo
Entre costuras e alinhavos no tempo
Resenha crítica e um olhar psicanalítico do livro "O tempo entre costuras", de Maria Dueñas (2009)
Já tem um tempo que estou lendo suspenses, então decidi fazer um passeio por outros estilos. Escolhi “O Tempo entre Costuras” sem ler a sinopse, como um desvio de rota nas leituras que não pareceu aleatório, pois tive a impressão de que o livro me escolheu. Talvez faça sentido, porque é como tenho me sentido nestes últimos tempo e o livro gira justamente em torno disso: o que a vida faz quando a gente perde o controle do próprio roteiro.
Ler um livro cujo estilo não é familiar nem sempre traz impacto imediato, mas abre um tipo de experiência menos acelerada. Esse tipo de narrativa exige um outro ritmo de quem lê e talvez por isso funcione como um deslocamento interessante. Não é tanto sobre “gostar ou não”, mas sobre ampliar o que te prende e o que te sustenta dentro de uma história.
O livro narra a trajetória de Sira Quiroga, que se organiza em três movimentos bem marcados.
Na primeira parte, ela ainda vive uma vida simples como costureira que, antes da Guerra Civil Espanhola, deixa Madrid por amor e vai parar em Marrocos.
A segunda parte acontece em Tânger e depois em Tetuán, no Marrocos. Aqui vem a ruptura mais dura: abandono, precariedade, necessidade de recomeçar praticamente do zero. Sira deixa de ser conduzida pelos acontecimentos e começa, ainda que com dificuldade, a reagir a eles. A costura deixa de ser apenas trabalho e vira sobrevivência e estratégia.
Na terceira parte, já mais estruturada, ela abre seu ateliê e entra em um circuito social mais sofisticado, o que a aproxima de figuras políticas e a leva, pouco a pouco, para o universo da espionagem durante a guerra. É o momento em que ela passa a operar com mais consciência do que faz, mesmo que ainda haja riscos e ambiguidades.
Não são apenas mudanças de cenário, são mudanças de posição e em cada parte, ela ocupa um lugar diferente diante da própria vida.
O que poderia ser só um romance de época, com cenários bem descritos e uma trama envolvente, desliza para algo mais íntimo: a experiência de se refazer sem garantias onde a costura deixa de ser ofício e vira linguagem. O pano de fundo histórico amplia, mas não engole a personagem. Há uma guerra acontecendo na Europa, mas o que permanece é o seu movimento interno e silencioso: o de alguém que deixa de esperar ser salva e passa a sustentar a própria existência, mesmo sem saber exatamente como.
Talvez o livro peça uma leitura mais lenta pois trata justamente disso: do tempo que as coisas levam para se reorganizar por dentro.
Talvez por isso esse livro não tenha sido um acaso, pois há algo em mim que também opera nesse intervalo: entre o trabalho e a leitura, entre o que precisa ser feito e o que não encontra lugar tão facilmente e, de algum modo, acompanhar Sira foi também sustentar esse tempo: não o da pressa, mas o do que ainda está sendo elaborado, mesmo quando a vida já seguiu adiante.Parte superior do formulário
Ficha técnica:
Livro: O Tempo entre Costuras
Autora: María Dueñas
Editora: Planeta
Ano de publicação: 2009
Número de páginas: 480
Gênero: Romance histórico / Ficção
Ambientação: Madri, Tânger, Tetuão
Contexto histórico: Guerra Civil Espanhola e Segunda Guerra Mundial
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