Resenha crítica e um olhar psicanalítico do filme “Mil e Um” (2023), de A.V. Rockwell, no qual uma mãe esbarra em seu lugar social como um possível limite ao amor materno.
Ambientado no Harlem, o filme “Mil e Um” acompanha Inez (Teyana Taylor), uma mulher recém-saída da prisão que decide sequestrar de volta seu filho de 6 anos do sistema de adoção. Determinada a reconstruir a vida dele e a sua, ela enfrenta as transformações sociais, econômicas e raciais que atravessam Nova York nos anos 1990 e 2000.
O filme acompanha uma década de gentrificação em Nova York, mas essa transformação não se dá apenas no espaço urbano. A requalificação urbana se inscreve no corpo negro de Inez, pois as mudanças do perímetro da cidade, comércios que desaparecem, construções antigas que se degradam e ruas que se tornam outras, ecoam na forma como esse corpo passa a ser lido, contido e vigiado.
À medida que o bairro se reorganiza para expulsar, também se reorganizam as políticas que incidem sobre corpos negros e imigrantes: mais taxativas, menos abrangentes e menos dispostas a acolher o desejo. O desejo de permanecer, de amar, de ocupar e de existir fora do lugar que foi destinado a Inez, torna-se um excesso. Algo que não cabe no novo desenho da cidade.
A gentrificação não aparece apenas como fenômeno urbano, mas pode ser lida como operação simbólica: o que precisa ser removido para que outro projeto avance. E, nesse processo, o corpo de Inez torna-se território em disputa, marcado pela insistência de um desejo que não se deixa apagar, mesmo quando o espaço já não lhe oferece lugar.
A história do filme acompanha a relação mãe-filho ao longo dos anos, expondo tanto o amor e a luta quanto as falhas, segredos e escolhas duras que moldam suas vidas.
O filme mistura o drama íntimo entre mãe e filho com uma crítica social que não se anuncia, mas que faz parte do cotidiano dos personagens. O vínculo entre Inez e o filho é apresentado como refúgio: um espaço de pertencimento em um mundo que continuamente os rejeita. É ali, nesse laço fechado sobre si mesmo, que ambos encontram proteção contra a violência do entorno, contra o olhar do Estado e contra a instabilidade que ameaça a todo instante.
Mas o mesmo vínculo que abriga, também restringe. Para sobreviver, esse amor precisa se tornar compacto, quase impermeável. O filho cresce sustentado por um cuidado intenso, porém cercado por silêncios que não podem ser rompidos sem risco. O laço familiar, então, deixa de ser apenas lugar de amparo e funciona como limite: aquilo que protege é também o que impede o deslocamento.
Nesse sentido, o filme revela como, em contextos de exclusão, a família pode se transformar em um microterritório de resistência, mas ao custo de exigir fidelidade absoluta. Amar torna-se, simultaneamente, cuidado e confinamento. Não por excesso de intenção, mas porque, quando o mundo não oferece alternativas, o vínculo passa a carregar mais do que pode sustentar.
Há uma passagem no filme em que na infância, o filho expressa a dor do abandono ao questionar as ausências constantes de Inez, que, por sua vez, associa sua dificuldade de cuidado à infância do seu filho ao fato de também ter sido criada em um orfanato e, entre faltas e excessos, oscila entre ausência e controle, tentando manter o filho sempre junto a si.
Do ponto de vista psicanalítico, o que se vê é uma maternidade marcada pela falta de garantias. Inez ama, mas ama como pode, sem proteção simbólica, sem estabilidade, sem promessa de futuro. O filho, por sua vez, cresce sob esse amor intenso, quase absoluto, mas também sob um silêncio fundamental: certas verdades não podem ser ditas sem que tudo desmorone.
Inez busca dar ao filho aquilo que ela mesma não teve, em uma tentativa de reparar sua própria história. Seu filho se torna, de certo modo, depositário do desejo e da dor da mãe. O roteiro assume esse paradoxo com coragem ao retratar uma maternidade falha e real, distante de idealizações, mostrando Inez tomando decisões equivocadas e arcando com suas consequências ao longo do filme.
O filme mostra Inez como uma mulher fisicamente forte e atraente que vai definhando internamente, à medida em que seu segredo (sequestro do próprio filho do sistema de abrigo americano) corre o risco de vir à tona, na qual parte de sua angústia é vista na maneira como é tratada pelos homens que passam por sua vida.
Inez é uma mulher negra, pobre, mãe solo e ex presidiária, o que por si só poderia ser o suficiente para mostrar o quão a margem da sociedade ela se encontra, porém, seu drama se agrava todas as vezes em que é calada quando se coloca como sujeito, violência que não aparece como golpe, mas como estrutura.
O filme expõe o choque entre o desejo e a realidade social. O desejo materno quer salvar, mas a estrutura social (racismo, desigualdade, gentrificação e abandono estatal) impõe limites, pois não são cenário; são forças silenciosas que moldam destinos, restringem escolhas e encurtam futuros. O desejo individual existe, porém não flutua livremente, pois esbarra, tropeça e cede ao que está posto.
O que resta é a pergunta incômoda, insistente: até onde é possível sustentar um laço sem esmagar quem está dentro e fora dele?
Talvez seja isso que o filme nos oferece: não há respostas, mas a experiência de olhar para o amor quando ele não salva e ainda assim insiste em existir.
Título original: A Thousand and One
Título no Brasil: Mil e Um
Ano: 2023
País: Estados Unidos
Direção e roteiro: A.V. Rockwell
Gênero: Drama
Duração: 117 minutos (aprox. 1h57min)
Sinopse: ambientado no Harlem, o filme fala de uma mulher recém-saída da prisão que decide sequestrar de volta seu filho de 6 anos do sistema de adoção. Determinada a reconstruir a vida dele e a sua, ela enfrenta as transformações sociais, econômicas e raciais que atravessam Nova York nos anos 1990 e 2000.
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