Texto de opinião com um olhar psicanalítico sobre frases prontas.
As frases de Fernanda Torres ganharam força porque surgem num momento em que a vida parece exigir de todos uma posição: acreditar ou desistir ".
"A vida presta, e muito", "Confie", "A vida vale a pena", "Não meço a vida em termos de ganhar ou perder"... são afirmações bonitas, mas talvez a psicanálise nos convide a escutá-las menos como verdades universais e mais como respostas singulares à experiência de quem as enuncia.
A primeira delas "A vida presta, e muito. Confie" merece uma pausa. Confie em quê? Em quem?
A vida, para a psicanálise, não oferece garantias, pois não há um Outro capaz de assegurar que tudo dará certo. Há perdas, desencontros, lutos, fracassos e contingências. Há sujeitos para quem a vida, em determinados momentos, não presta absolutamente nada.
O que sustenta a frase talvez não esteja em sua promessa, mas justamente em seu caráter de aposta. Não se trata de uma certeza, trata-se de uma decisão subjetiva de continuar investindo na vida apesar da ausência de garantias.
Já "A vida vale a pena" parece carregar uma pergunta silenciosa: para quem? Em quais condições?
A psicanálise não parte do pressuposto de que a vida possui um valor intrínseco ou um sentido universal. O valor da vida não está dado; ele é construído.
Há momentos em que o sujeito experimenta a existência como excessivamente pesada, vazia ou sem direção. Nesses momentos, afirmar que a vida vale a pena pode soar menos como um consolo e mais como uma exigência cruel. Talvez fosse mais honesto dizer que a vida pode, em certas circunstâncias, tornar-se digna do desejo de quem a vive.
A terceira frase, "Não meço a vida em termos de ganhar ou perder", parece a mais próxima de uma ética psicanalítica. Ainda assim, ela também pode ser interrogada. Será mesmo possível viver completamente fora da lógica da perda e do ganho?
Freud mostrou que o sujeito é marcado por experiências de satisfação, de frustração, de conquista e de renúncia. Lacan foi ainda mais longe ao afirmar que o desejo se constitui justamente em torno da falta.
Não existe vida humana sem perdas. Talvez a questão não seja abandonar essa lógica, mas reconhecer que algumas das experiências mais decisivas da existência escapam às categorias de vitória e derrota.
Um encontro amoroso não é um troféu. Um luto não é uma derrota. Uma análise não é uma competição. Muitas vezes, aquilo que parece uma perda produz transformações fundamentais, enquanto certas conquistas revelam um vazio inesperado.
A lógica do desempenho, tão presente em nosso tempo, nos convida a contabilizar a vida como se ela fosse uma sucessão de vitórias e de fracassos. O relacionamento que deu certo, a carreira bem-sucedida, a meta alcançada, o reconhecimento obtido... Mas a experiência humana resiste a essa contabilidade.
Nem todo amor correspondido produz felicidade. Nem toda separação representa um fracasso. Há encontros que nos diminuem e despedidas que nos devolvem a nós mesmos. Há conquistas que exigem um preço tão alto que já não sabemos se realmente desejávamos aquilo que alcançamos.
A psicanálise nos mostra que o sujeito não se transforma apenas pelo que conquista, mas também pelo que perde. Certas perdas rompem identificações, desmontam ilusões e obrigam o sujeito a inventar novos modos de existir. Não porque o sofrimento seja desejável, mas porque ele pode produzir deslocamentos que nenhuma vitória seria capaz de provocar.
Talvez por isso algumas das experiências mais decisivas da vida escapem à lógica do sucesso e do fracasso. Elas não podem ser medidas por resultados, mas pelos efeitos que produzem na relação de cada um com o próprio desejo.
Há perdas que nos empobrecem, há perdas que nos transformam e há conquistas que, uma vez alcançadas, revelam que a questão nunca foi ganhar, mas descobrir o que realmente estava em jogo para nós.
Talvez a contribuição mais interessante da psicanálise seja justamente introduzir uma certa desconfiança diante das frases prontas, mesmo quando são belas. Não porque elas estejam erradas, mas porque toda afirmação universal corre o risco de apagar a singularidade da experiência humana.
A vida presta? Às vezes sim, às vezes não.
A vida vale a pena? Nem sempre essa resposta está disponível.
A vida pode ser medida em ganhos e perdas? Em parte, mas há algo do desejo que escapa a essa contabilidade.
Talvez a questão mais psicanalítica não seja afirmar ou negar nenhuma dessas frases, mas sustentar a pergunta. Afinal, cada sujeito precisa encontrar, à sua maneira, o que faz a vida merecer ser vivida sem garantias, sem receitas e sem a obrigação de acreditar.
Para mais novidades, siga: @significantesss #liliateindica no Instagram.
🌿 Atendo presencial e online, em um espaço de palavra e de escuta.