Resenha crítica e um olhar psicanalítico do filme “Mãe só há uma” (2016), de Anna Muylaert
Mãe Só Há Uma mergulha nas complexas camadas da identidade, da maternidade e do pertencimento. A trama acompanha Pierre, um adolescente aparentemente comum da periferia paulistana, envolvido com as descobertas típicas da juventude, com música, o desejo e as experimentações de gênero. Essa vida, ainda em construção, sofre uma ruptura radical quando um teste de DNA revela que ele foi roubado na maternidade. A mulher que o criou por 17 anos não é sua mãe biológica. A verdade, ao emergir, não devolve nada intacto: ela inaugura uma perda que se multiplica.
A verdade, ao emergir, não devolve nada intacto: ela inaugura uma perda que se multiplica. Perde-se, antes de tudo, o lugar que parecia sabido como certo: o de filho, o de pertencente, o de alguém que tinha uma história contínua. O que sustentava o cotidiano como algo dado deixa de existir, e o sujeito é lançado numa espécie de desterro simbólico.
Não se trata apenas de mudar de casa ou de nome, mas de perder o chão sobre o qual se caminhava sem pensar. O que dói não é apenas a mentira revelada, mas a queda da ilusão de que havia um lugar estável no mundo. A partir daí, tudo precisa ser reinventado e nem sempre há garantias de que essa reinvenção seja possível ou suficiente.
A partir dessa revelação, Pierre, que já enfrentava conflitos internos, é forçado a mudar de nome, casa, escola e família, mergulhando em um processo violento de reconstrução de si mesmo.
Violento porque não acontece no tempo do sujeito, nem a partir de um desejo, mas por imposição. Tudo aquilo que o sustentava como alguém reconhecível, o nome pelo qual era chamado, o espaço que habitava, os laços que o nomeavam, é retirado de uma só vez.
Não há transição possível: a vida anterior é interrompida bruscamente, e o que vem depois não se apresenta como escolha, mas como obrigação. Reconstruir-se, nesse contexto, não é um gesto de liberdade, mas uma tentativa de sobreviver à perda de referências fundamentais.
O filme se destaca por sua abordagem sutil, porém poderosa, sobre identidade de gênero. Ao longo da trama, Pierre se revela uma jovem mulher trans, embora essa transição não seja nomeada ou explicada didaticamente. Muylaert opta por mostrar, e não explicar, confiando na sensibilidade do espectador para captar os gestos e os silêncios do personagem. Esse tratamento contribui para a autenticidade da obra, mas também pode deixar lacunas que exigem mais do público.
Um dos pontos altos do filme é a atuação da mesma atriz (Daniela Nefussi) nos papéis da mãe que criou Pierre e da mãe biológica. Essa escolha reforça a ambiguidade do conceito de maternidade: qual mãe é “de verdade”? A que deu à luz ou a que criou? A que amou ou a que procurou? Essa duplicidade convida à reflexão sobre os vínculos afetivos e biológicos, sem oferecer respostas fáceis.
Há uma cena particularmente marcante: no provador de uma loja, Pierre experimenta roupas na presença dos pais biológicos. É um momento de rara ternura e aceitação, um pequeno respiro em meio ao caos emocional que o personagem vive. Nesse gesto cotidiano, o filme aborda com delicadeza o processo de afirmação de gênero — e o papel da família nesse percurso.
Apesar de seu valor estético e temático, o filme carece de um aprofundamento mais incisivo nos conflitos que levanta. Questões como o impacto psicológico do sequestro, as tensões da maternidade e os dilemas da adolescência trans aparecem, mas não são exploradas em toda a sua complexidade. No entanto, essa escolha narrativa não chega a ser um defeito: o desconforto gerado pela ausência de respostas é justamente o que torna o filme instigante. Mãe Só Há Uma não fecha questões, mas as lança como provocações.
Ao final da obra, o sentimento é de perda múltipla. Todas as vidas foram, de algum modo, roubadas: a do filho que viveu uma mentira, as mães que perderam um filho e a identidade que Pierre tenta reconstruir em meio a tantas rupturas. O filme, embora breve e contido, reverbera profundamente e continua ecoando muito depois dos créditos finais.
Mãe Só Há Uma é, portanto, um filme essencial. Em menos de 90 minutos, condensa múltiplas camadas de questões urgentes e sensíveis, abrindo espaço para diálogos necessários sobre família, gênero e o direito de ser quem se é, lembrando-nos de que nem toda verdade liberta, e de que ser quem se é, muitas vezes, exige atravessar aquilo que não poderá ser recuperado.
Ficha Técnica:
Título original: Mãe Só Há Uma
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Ano: 2016
País: Brasil
Duração: 82 minutos
Gênero: Drama
Temas centrais: identidade, pertencimento, maternidade, violência simbólica e adolescência.
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