Resenha crítica e um olhar psicanalítico da série “Something in the Rain”, um anti-dorama sul-coeano que conta a história de Yoon Jin-ah.
Something in the Rain é um dorama sul-coreano sobre Jin-ah, uma mulher de 30 e poucos anos, solteira e desiludida, que redescobre o amor ao se apaixonar por Joon-hee, o irmão mais novo de sua melhor amiga, um homem mais jovem e carismático que retorna de anos no exterior, enfrentando juntos tabus sociais sobre a diferença de idade, pressão familiar e assédio no trabalho.
Chamar Something in the Rain de dorama é quase injusto. Ele usa a forma do dorama, mas recusa sua função clássica: consolar. Não promete redenção, não organiza o sofrimento para que ele faça sentido depois. Ele observa, sustenta e aguenta o incômodo. Por isso parece vida real.
Na vida real, o amor raramente fracassa por falta de sentimento. Ele fracassa porque o mundo cobra caro demais.
Jin-ah não é uma mulher em busca de amor. Ela é uma mulher cansada. Cansada de trabalhar em um ambiente que naturaliza o abuso, cansada de um namoro que existe mais por adequação do que por desejo, cansada de uma mãe que vigia, invade, humilha e chama isso de cuidado. Ela já vive em estado de concessão permanente.
Quando Joon-hee surge, ele não aparece como solução, e isso é fundamental. Ele aparece como algo mais perigoso: delicadeza possível. Ele olha, escuta, espera, sustenta presença e não tem pressa de possuir. Não se ofende com o medo dela e não transforma a ambivalência feminina em falha moral. Ele faz algo simples e raríssimo: fica.
E é exatamente por isso que o dorama dói.
Porque o amor ali não é fantasia. Ele é concreto, cotidiano, feito de gestos pequenos, silêncios respeitados, risadas tímidas e mãos dadas sem espetáculo. É um amor que poderia existir, e talvez exista, fora da tela. Mas o entorno não permite.
O grande antagonista de Something in the Rain não é a mãe, nem a empresa, nem a diferença de idade. É o laço social. Um laço que exige da mulher uma renúncia constante: do corpo, da voz, do tempo e da escolha. Um laço que transforma o desejo feminino em ameaça à ordem.
A mãe de Jin-ah não odeia o amor da filha, odeia o risco e possibilidade da quebra do roteiro. Odeia a filha que decide: ficar com o amigo do irmão mais novo. O controle não vem do ódio explícito, mas da crença de que a mulher precisa ser conduzida, corrigida, protegida de si mesma. Violência travestida de zelo: uma das formas mais eficazes de dominação.
No trabalho, a lógica é semelhante: homens abusam, a instituição silencia e o custo recai sobre as mulheres que ousam nomear. Falar tem preço e amar também.
Por isso Jin-ah vacila. Não por fraqueza, mas porque ela percebe algo que muitas narrativas escondem: amar não é só escolher alguém; é romper com um sistema inteiro. E fazer isso quase sempre sozinha.
É aqui que Something in the Rain toca o mesmo ponto do 4B, embora caminhem em direções diferentes.
O 4B surge como um não radical: não namoro, não caso, não faço sexo, não tenho filhos com homens. Não porque o desejo morreu, mas porque o custo se tornou insuportável. É uma retirada do jogo, um movimento defensivo. Um “não vou mais pagar essa conta”.
O dorama, ao contrário, pergunta: e se, apesar de tudo, ainda houvesse amor? Mas não romantiza a resposta.
Ele mostra que, mesmo quando o homem sustenta e Joon-hee sustenta, isso não basta para desmontar a engrenagem. O problema nunca foi apenas o homem individual. É o mundo que o cerca e que não protege o vínculo.
Essa é a parte mais cruel e mais real. Porque desmonta uma ilusão confortável: a de que basta encontrar “o homem certo”. O dorama mostra que o homem pode ser justo, presente, desejante e ainda assim o amor sangra.
Por isso ele é um anti-dorama. Ele não transforma o amor em salvação.
Ele não faz da mulher uma heroína resiliente. Ele não recompensa o sofrimento com um final reparador.
Ele mostra o amor como algo verdadeiro, porém vulnerável. Algo que existe, mas não é garantido. Algo que não protege do desgaste psíquico, da solidão estrutural, do medo de perder tudo.
Talvez seja por isso que tantas mulheres amem esse dorama e, ao mesmo tempo, desistam da cena amorosa real. Não porque não desejem, mas porque reconhecem o roteiro. Reconhecem o cansaço. Reconhecem o ponto em que amar deixa de ser encontro e vira trabalho solitário.
O 4B fecha a porta antes disso. Something in the Rain deixa a porta aberta e mostra o vento entrando, derrubando coisas, fazendo bagunça, esfriando o corpo. Nenhum dos dois fala de ódio. Ambos falam de exaustão.
E talvez a pergunta que o dorama deixa ecoando o movimento do 4B não seja “vale a pena amar?”, mas outra, mais dura e mais honesta: Por que, para as mulheres, amar ainda custa tanto?
Não há resposta fácil. Só a sensação persistente de que o amor, quando não é protegido pelo mundo, pode ser tão bonito quanto insuficiente.
E isso, infelizmente, é muito vida real.
Ficha Técnica:
Título: Something in the Rain
Gênero: Romance, Drama, Realismo
País/Ano de Lançamento: Coreia do Sul/2018
Episódios: 16
Onde assistir: Netflix
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