Texto de opinião com um olhar psicanalítico sobre os doramas.
Eu comecei a ver doramas pelas histórias de amor rasgado, em que os enamorados passam vários episódios se conhecendo e o beijo é sempre no útimo episódio, prometendo um final feliz. Talvez por se assemelhar com as histórias das princesas da Disney, eu fui vendo um atrás do outro.
Com o tempo, porém, o algoritmo começou a me mostrar doramas diferentes e fui percebendo que estas histórias melosas, sustentadas por promessas fáceis e finais felizes, já não me satisfaziam mais.
Hoje, o que me interessa são os doramas que não oferecem garantias nem tratam o amor como prêmio. O que me prende é justamente quando a narrativa falha em consertar tudo, quando o afeto passa por classe, família, hierarquia, silêncio e medo.
Estou vendo doramas que nos mostram que o amor não aparece puro, livre ou direto, mas passa por forças que o desviam, o tensionam ou o limitam.
Talvez por isso eu estou inclinada menos aos doramas melosos e mais aos que parecem vida real demais para confortar. Os que deixam restos, que não resolvem o conflito materno, não salvam o amor do desgaste e que não fingem que tudo se sustenta apenas pela vontade de amar. Histórias em que o amor não é fuga, mas que parecem vida real demais para confortar.
Gosto desse formato porque ele se demora, porque não tem pressa de chegar ao ponto, porque insiste nas cenas cotidianas, nos pequenos constrangimentos, nas repetições e nos olhares que dizem mais do que as falas. Os doramas me interessam quando funcionam quase como um caso clínico: não explicam, mostram. Não julgam, sustentam a cena.
Ao contrário do que se imagina, não vejo neles uma pedagogia do romance ideal. Vejo um laboratório afetivo onde se experimenta, muitas vezes até o limite, o que acontece quando o amor encontra estruturas que não foram feitas para acolhê-lo. Família, trabalho, cultura, expectativa social, dívida emocional e obediência. Tudo isso entra em cena junto com o desejo.
Talvez minha paixão pelos doramas venha daí: eles não me oferecem escapismo. Me oferecem linguagem para pensar as relações quando o amor não cabe, quando custa caro, quando exige ruptura e quando pede silêncio em vez de discurso.
É a partir desse lugar, não de fã, mas de expectadora implicada, que procuro histórias diferentes, não para repetir o encantamento, mas para escutar o que elas continuam dizendo sobre amar, resistir e, às vezes, não aceitar mais pagar o mesmo preço.
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