Texto de opinião sobre um podcast que gosto muito de escutar.
Às vezes, o que dói não é a ausência de doçura, pois o pudim estava ali: havia cuidado e presença. Tudo parecia seguir a receita conhecida. Só que algo, quase imperceptível, escorria por cima; ela se misturava ao doce, acompanhava, passava despercebida. Até que, em algum momento, o gosto estranho se impunha e ficava claro que não era o pudim que estava errado, mas aquilo que o cobria desde o início.
Talvez o sucesso do podcast Não Inviabilize esteja na calda do pudim, pois não está apenas nas histórias que ele conta, mas no lugar simbólico que o podcast ocupa.
O podcast funciona como um espaço onde o cotidiano, normalmente desqualificado como banal, ganha estatuto de “algo que importa”. Déia Freitas devolve às histórias um contorno que muitas pessoas nunca tiveram: transforma o cotidiano, tantas vezes tratado como irrelevante, em algo que merece atenção, contorno e consequência.
Há algo de profundamente cultural nisso. Vivemos em um tempo que só legitima o extraordinário: o trauma explícito, o abuso nomeado, o escândalo incontestável. O Não Inviabilize faz o caminho inverso. Ele se ocupa do que acontece no meio: das relações que não foram oficialmente violentas, mas tampouco foram justas; dos vínculos em que nada “grave” aconteceu, exceto o desgaste silencioso de quem foi ficando sozinho no investimento.
Dentro desse universo, Picolé de Limão se tornou um fenômeno porque nomeia algo que quase todo mundo conhece, mas raramente consegue organizar: experiência comum e pouco simbolizada que é a sensação de ter sido passado para trás, inclusive afetivamente.
São histórias em que o dano não vem de grandes vilões, mas de relações comuns, promessas frouxas, silêncios convenientes e dependências mal combinadas. Muitas vezes não se trata de grandes golpes, mas de pequenas assimetrias que se repetem até virar estrutura.
Ser feita de trouxa não tem a ver com falta de inteligência ou ingenuidade excessiva. Tem a ver com aposta. Quem se sente trouxa geralmente apostou alto: investiu tempo, cuidado, escuta, dinheiro e presença. Apostou acreditando na palavra do outro, nos gestos repetidos, no “quase” que parecia sempre prestes a virar compromisso ou amizade.
Ser feita de trouxa não tem a ver com falta de inteligência ou ingenuidade excessiva. Tem a ver com aposta de que o outro, em algum momento, iria se implicar. O sofrimento não vem apenas da perda do vínculo, mas da constatação tardia de que a implicação nunca foi mútua.
Nesses relatos, ser feita de trouxa não diz de ingenuidade, mas de desejo. Do desejo de que o outro, em algum momento, se implicasse. O sofrimento não vem apenas da perda do vínculo, mas da constatação tardia de que a implicação nunca foi mútua. O constrangimento não está em ter acreditado, mas em perceber que o outro nunca esteve jogando o mesmo jogo.
Em Picolé de Limão, essa sensação aparece com frequência porque as histórias revelam algo que costuma ficar encoberto: muitas relações se sustentam por um acordo silencioso em que uma parte carrega o peso enquanto a outra usufrui. Quando esse acordo se rompe, seja por um término, uma descoberta ou um processo judicial, o que dói não é apenas a perda do vínculo, mas a constatação de que a assimetria já existia há muito tempo. O azedo do picolé de limão não está no drama espetacular, mas no reconhecimento tardio de que algo já estava errado há muito tempo.
Há também um componente de vergonha nesses relatos. A vergonha de não ter visto antes, de ter tolerado demais, de ter explicado para si o que já não se sustentava. Essa vergonha é cruel porque costuma ser vivida em silêncio. O podcast rompe esse silêncio ao mostrar que o “ter sido feita de trouxa” não é exceção nem falha moral, mas um efeito possível de vínculos mal nomeados, promessas frouxas e desejos desencontrados.
Do ponto de vista psicanalítico, essas histórias tocam num ponto sensível: a dificuldade de reconhecer o momento em que a entrega deixa de ser laço e passa a ser sustentação unilateral. Muitas vezes, o sujeito se mantém ali não por desconhecer o mal-estar, mas por sustentá-lo com explicações ... “é uma fase”, “ele vai mudar”, “ninguém é perfeito” ... O podcast não acusa essas defesas; ele as expõe com delicadeza, permitindo que cada ouvinte se reconheça nelas sem precisar se justificar.
Outro ponto central é que o quadro não oferece consolo fácil. Não há lição moral edificante nem promessa de redenção: há consequência e custo. E isso produz um efeito raro: o ouvinte não se identifica para se sentir melhor, mas para se localizar. A pergunta que fica não é “coitada dessa pessoa”, mas “em que ponto isso começou a se sustentar?”. O sucesso nasce dessa fricção: escutar o outro e, ao mesmo tempo, ser convocado a olhar para as próprias concessões.
Além disso, Déia Freitas domina algo precioso: o ritmo da fala e o uso da linguagem cotidiana sem empobrecê-la. O humor não aparece para aliviar, mas para sublinhar o absurdo. A ironia não humilha; ela recorta. Esse manejo cria uma experiência quase clínica, embora fora do consultório: a história anda, tropeça, insiste, até que algo se revele, não como verdade absoluta, mas como um resto incômodo.
Há também algo importante no modo como essas histórias circulam e por isso Picolé de Limão é um sucesso, pois há a possibilidade de escutar o próprio tropeço sem glamour e sem humilhação. Talvez por isso faça tanto sucesso. Porque, em vez de ensinar como amar melhor, ele mostra o preço de amar sem acordo claro e deixa que cada um decida o que faz com isso.
São histórias em que o dano não vem de grandes vilões, mas de relações ordinárias, promessas frouxas, silêncios convenientes, dependências mal combinadas. Muitas vezes não se trata de grandes golpes, mas de pequenas assimetrias que se repetem até virar estrutura.
Essas histórias tão comuns autorizam o ouvinte a reconhecer essa experiência sem romantizá-la e sem se reduzir a ela. Não para transformar o outro em vilão, mas para localizar o ponto em que o cuidado virou exploração e a aposta virou prejuízo.
Ao serem contadas, elas deixam de ser vividas apenas como fracasso individual e passam a integrar um repertório coletivo. Isso produz um efeito de alívio, mas também de responsabilidade. Não no sentido moral, e sim no sentido de localização: onde eu me coloquei? O que eu aceitei sustentar? O que eu chamei de amor quando já era custo?
O podcast não promete cura, nem fechamento elegante. Oferece algo mais raro: a possibilidade de reconhecer, em voz alta, que nem todo vínculo foi justo, que nem todo amor foi ingênuo e que algumas histórias só fazem sentido depois que terminam.
Talvez escutar essas histórias não salve ninguém do erro, mas ... quem sabe ajude a não confundir entrega com disponibilidade infinita? Fica a questão.
Algumas histórias só fazem sentido depois que terminam. Outras, apenas quando se reconhece o gosto que ficou. O pudim era real e a calda, muitas vezes de vinagre, também.
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