Texto de opinião sobre os movimentos de reação à autonomia feminina na sociedade contemporânea.
O que une o movimento 4B, os feminismos contemporâneos, o crescimento de discursos red pill e MGTOW e o recrudescimento do backlash não é uma guerra entre sexos. É algo mais profundo: o colapso de um modelo de garantia. Um modelo em que o afeto, o cuidado e a disponibilidade feminina eram dados quase naturais do mundo social.
Quando essa garantia começa a falhar, o sistema reage.
O 4B, surgido na Coreia do Sul, é talvez a expressão mais radical e mais silenciosa dessa falha. Ele não reivindica direitos, não pede reconhecimento, não negocia novas regras. Ele se retira. Ao recusar casamento, maternidade, namoro e sexo heterossexual, o 4B não faz uma crítica moral aos homens, nem promete felicidade às mulheres. Ele estabelece um limite: esse custo não é mais aceitável.
No Ocidente, o feminismo seguiu, majoritariamente, outro caminho. Em vez da retirada, apostou na transformação do laço: igualdade jurídica, redistribuição do cuidado, novas formas de amar, revisão das masculinidades. O movimento se inscreve na tentativa de reformular o jogo. Parte da ideia de que o jogo pode ser reformado, desde que se mude a estrutura.
Mas mesmo nesse campo, algo se deslocou. À medida que mulheres conquistaram autonomia econômica, simbólica e subjetiva, a permanência nos vínculos deixou de ser automática. A possibilidade de sair de cena escolhendo menos, ficando só ou não aceitando qualquer coisa, passou a existir de fato. E é aí que o backlash entra em cena.
O backlash não é simples discordância. É a reação defensiva quando privilégios antes invisíveis se tornam incertos. No campo afetivo, ele se manifesta como nostalgia: “ninguém quer amar mais”, “as mulheres ficaram exigentes”, “o feminismo matou o romance”, “paquerar hoje é assédio”. Essas frases não descrevem a realidade, elas tentam moralizar a retirada feminina, transformando limite em defeito.
É nesse terreno que florescem os discursos red pill e MGTOW.
Ambos partem do mesmo diagnóstico parcial: o jogo mudou. Mas a resposta é oposta à do 4B. Em vez de reconhecer o custo histórico imposto às mulheres, esses movimentos reinterpretam a autonomia feminina como ameaça ou fraude. Produzem teorias para restaurar controle, enquadrando mulheres como interesseiras, manipuladoras ou perigosas. Onde o 4B diz “não pago mais esse preço”, o red pill responde “o problema são elas”. Onde o MGTOW se retira, o faz carregando o conflito consigo, alimentado por ressentimento e hostilidade.
Há, portanto, uma simetria enganosa: todos se retiram de algum modo, mas não pelo mesmo motivo. O 4B se retira para preservar o corpo e a vida. Red pill e MGTOW se retiram (ou atacam) para restaurar uma posição perdida. O 4B é um movimento ético; os outros são reativos.
O ponto decisivo é que nada disso fala do fim do amor. Fala do fim de um modelo de amor sustentado por assimetria. Durante muito tempo, amar foi, para as mulheres, um exercício de tolerância infinita: tolerar desigualdade, cansaço, sobrecarga emocional, silenciamento do próprio desejo. Quando essa tolerância deixa de ser oferecida, o sistema entra em crise e chama o que vem ocorrendo de decadência moral.
Mas talvez o que esteja em jogo seja outra coisa: a autonomia feminina diante dos relacionamentos. A possibilidade de amar sem desaparecer. A possibilidade de não amar se o preço for alto demais. A possibilidade de escolher menos, explicar menos, sustentar mais silêncio.
O 4B não é um modelo universal, nem uma solução exportável, mas ele radicaliza uma pergunta que atravessa muitas mulheres hoje, dentro e fora do Ocidente: até onde vale insistir? Quando amar deixa de ser aposta e passa a ser esgotamento, sair do jogo deixa de ser desistência e se torna preservação.
O backlash grita porque perde garantias.
O red pill teoriza porque perdeu controle.
O MGTOW se isola porque não sabe sustentar o conflito.
O 4B, ao contrário, não grita, não teoriza, não acusa. Ele simplesmente não se oferece.
Talvez seja isso que mais desorganiza: quando mulheres param de justificar sua retirada, o vazio aparece. E o vazio obriga a pergunta que o sistema sempre adiou: quem sustentava esse amor e a que custo?
Não se trata de declarar o fim dos relacionamentos. Trata-se de reconhecer que, sem autonomia feminina real, o amor nunca foi exatamente escolha. Foi dever.
E dever, quando se rompe, sempre provoca reação.
Legenda dos termos citados no texto
4B
Movimento surgido na Coreia do Sul cujo nome se refere a quatro recusas: não casar, não ter filhos, não namorar homens e não fazer sexo com homens. Não propõe reforma do laço heterossexual, mas uma retirada política diante do custo psíquico e social imposto às mulheres.
Autonomia feminina
Capacidade real (material, simbólica e subjetiva) de escolher permanecer ou sair de um vínculo sem que isso implique punição social, culpa moral ou precarização da própria vida.
Backlash
Reação contrária que surge quando avanços sociais deslocam normas e privilégios antes naturalizados. No campo afetivo, manifesta-se como discursos nostálgicos e moralizantes que culpabilizam as mulheres pela crise dos relacionamentos.
Feminismo (no contexto do texto)
Conjunto diverso de movimentos e teorias que buscam igualdade de direitos e transformação das estruturas de gênero. No Ocidente, em grande parte, aposta na renegociação do amor, do cuidado e das relações, mais do que na retirada total do jogo afetivo.
MGTOW (Men Going Their Own Way)
Movimento masculino que defende a retirada dos relacionamentos com mulheres, não como gesto ético de preservação, mas como resposta defensiva e ressentida à perda de privilégios e garantias afetivas.
Red pill
Conjunto de discursos masculinos reativos à autonomia feminina, que interpreta as mudanças nas relações de gênero como ameaça ou injustiça contra os homens. Costuma transformar o amor em estratégia de poder e as mulheres em objetos de suspeita.
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